Assando bolos em Kigali, de Gaile Parkin

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Alguns livros são amor à primeira vista. Outros, no entanto, exigem de nós um certo esforço, um apuramento do paladar de modo a apreciar sua grandeza. Assando bolos em Kigali, da autora zâmbia (branca) Gaile Parkin, não foi de maneira alguma um caso de paixão fulminante. Muito pelo contrário: seu excesso de small talks, suas descrições intermináveis, bem como seu tom excessivamente didatizante, chegaram mesmo a me tirar do sério nos primeiros tempos, e a julgar que nunca mais o acabaria. Até que eu me desse conta de que sua beleza reside justamente naquilo que me havia incomodado a princípio.

Assando bolos em Kigali é um romance  cuja estrutura se desenrola de maneira similar a uma telenovela, tendo como eixo central a figura materna e benfazeja de Angel, uma avó quarentona da Tanzânia, proprietária de uma pâtisserie no coração de Kigali, capital do Ruanda. Seus clientes, oriundos das mais distintas classes sociais, são estrangeiros expats, funcionários das Nações Unidas, esposas de diplomatas, mas também pessoas simples, como soldados, enfermeiras e professores locais, bem como imigrantes indianos, árabes e de boa parte da África Central. Atraídos por seus excelentes dotes culinários, bem como pelo seu inigualável talento como conselheira, essas pessoas encontram em Angel uma interlocutora fiel e discreta, a quem confiam seus maiores segredos em torno de uma boa xícara de chá. Através da história individual de cada um de seus clientes, a simpática business woman é capaz não apenas de lhes criar um bolo absolutamente sob medida, mas também sair por aí fazendo pequenos remendos na vida cotidiana, pequenos atos de simpatia e bondade capazes de transformar pouco a pouco o mundo à sua volta.

Tudo isso é narrado, como dito anteriormente, num excesso de detalhes e numa lentidão capazes de incomodar o leitor mais afoito, daqueles que se encontram sempre à espera do clímax. Verdade seja dita, não se pode falar aqui de um ponto alto propriamente dito, exceto talvez pelo desenvolvimento progressivo da própria protagonista. Ao se confrontar com os dramas e tragédias pessoais de cada um de seus fregueses – muitos deles envolvidos diretamente no massacre dos tutsis pelos hutus na década de 1990 –, Angel torna-se capaz de enfrentar seus próprios fantasmas, permitindo-se o privilégio do luto, bem como da perda e do perdão. E chega a ser belo, se não um tanto clichê, que o consolo para uma mulher tão sábia venha justamente das palavras de uma jovem prostituta, dessas que fazem pensar na trágica Geni de Chico Buarque.

Ao fim de mais de 300 páginas, não sei dizer se Gaile Parkin é uma autora de verdadeiro talento, ou se o sucesso de seu livro tenha sido fruto de sorte. Afinal, aquilo que me pareceu a princípio ser o seu maior defeito acabou por se tornar a sua principal qualidade. Pois os seus longos diálogos, repletos de repetições e de detalhes aparentemente desnecessários, fazem o que quase nenhum outro livro africano tinha sido até agora capaz de fazer: transportar-me diretamente ao centro da narrativa. Suas descrições detalhadas incidem na memória de modo a que vejamos as cenas como se de um filme se tratasse, e chegássemos mesmo a sentir o perfume dos bolos de Angel. A estrutura novelesca permite a criação de um panafricanismo consciente, de uma exaltação dos aspectos que unem os diversos povos que se entrecruzam, negando assim as barreiras forjadas (pelos brancos) que serviram por séculos para os separar. E, por fim, a falta de pressa da narrativa faz-nos lembrar a temporalidade distinta dos povos menos desenvolvidos, muito menos sobrepujados pelo inexorável relógio, muito mais dispostos a se dedicar àquilo que na vida realmente é importante. Como uma boa xícara de chá tomada com os amigos.

Como se não bastasse, ainda podemos louvar o fato de que o livro, de forte teor feminista, aborda sobretudo questões relacionadas ao empoderamento das mulheres, numa sociedade na qual o feminismo ainda é visto com olhos fortemente desconfiados.

Um livro, afinal, perfeito para o dia de hoje: Feliz dia das mães!

Título original: Baking Cakes in Kigali

País: Zâmbia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Globo (ISBN: 9788525046987)

Número de páginas: 320

Negro e prata, de Paolo Giordano

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Eu sempre fui uma rebelde. Na adolescência, embora passasse pelo menos 60% do meu tempo livre lendo, nunca lia aquilo que os professores pediam. Preferia (e ainda hoje prefiro) Crime e Castigo, Os três mosqueteiros e Jane Eyre a Amor de perdição, Iracema e Lucíola. Por isso, embora aos quinze anos já tivesse lido mais que todos os meus colegas de classe juntos, minhas notas nas chamadas “provas do livro”, baseadas como as deles em resumos, nunca foram as melhores.

Mas a menina rebelde tornou-se uma adulta com senso de responsabilidade. Por isso, embora já tenha lido a Itália, dediquei-me esta semana ao meu primeiro livro italiano lido em língua italiana. Tinha mesmo que ser: em breve, terei de fazer uma temida “prova do livro” sobre ele. Por sorte, a leitura de Paolo Giordano transformou o senso de obrigação num prazer inigualável. Tanto pelo deleite da bella língua em que foi escrito, quanto pela deliciosa descoberta de uma das personagens mais bem desenvolvidas da literatura contemporânea.

Eles a chamam Senhora A., ou Babette, jamais pelo seu verdadeiro nome. Viúva, 68 anos, sem filhos. Da vida privada, só lhe conhecemos um amigo anão. Ela é uma espécie de ama, misto de empregada doméstica, babá e secretária do lar, agregada tão íntima à família que eles mesmos (mas não ela!) se confundem, e já não sabem se ela trabalha de fato ou se os serve por prazer, como se se tratassem de filhos adotivos. Sua retribuição financeira lhe é paga semanalmente, segundo uma tabela obtusa que só a patroa compreende – e que ela nunca questiona. Mas mais que organizar a vida do jovem casal e de seu filho pequeno, a “nossa Babette” serve como pilar de sustentação para relações familiares que só se descobrirão frágeis e repletas de rancor quando ela se ausentar por definitivo.

Negro e prata é um romance curto, escrito em primeira pessoa segundo a perspectiva do pai da família, e trata de um intrincado jogo de relações humana tão conhecido por qualquer brasileiro, mas quase inexistente no Velho Continente – as relações entre patrões e empregados domésticos. Relações estas que se desdobram num caleidoscópio de sentimentos a partir do dia em que a Senhora A. telefona para lhes dizer que já não virá mais. Ela está doente, muito doente, e ainda lhe restam poucos meses de vida. Eventualmente, a doença fará com que eles a vejam pela pessoa que é, ou ao menos que se dêem conta de que nunca a tinham visto. Até lá, no entanto, eles terão de aprender a lidar com um forte sentimento de rejeição, como mimados filhos adultos postos para fora de casa, e reorganizar os escombros de suas vidas, mantidas intactas ao longo dos anos graças à presença pacificadora da ama do lar.

Nascido em Torino em 1982, Paolo Giordano é um autor jovem que escreve como um velho. Sua escolha acertada das palavras, sua linguagem límpida, porém repleta de entrelinhas, faz com que nos sintamos a ler um sábio de 80 anos, e não um menino de 30. Seu livro é um daqueles que quase já não se fazem, focados muito mais na profundidade psicológica de suas personagens que na trama propriamente dita. Pela sua análise ponderada das relações humanas, pela sua gentil dissecação dos laços de família, bem como pela acertada criação narrativa de personagens fortes e inesquecíveis, temos aqui um romance que merece ser saboreado como um bom vinho do Piemonte.

Embora tenha sido lançado há apenas dois anos, Negro e prata já foi traduzido para uma dezena de línguas, dentre as quais o português. Vale a pena conferir!

Mais tarde vos conto a nota da minha “prova do livro”!

Título original: Il nero e l’argento

País: Itália

Idioma original: Italiano

Ano de publicação: 2014

Edição portuguesa: Relógio d’Água (ISBN 978-989-6415-24-2)

Número de páginas: 120

Muito longe de casa, de Ishmael Beah

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Depois de quase 100 livros de países diferentes, é fácil a leitura se tornar repetitiva. Por isso, apesar das incontáveis críticas favoráveis, das traduções em todas as línguas possíveis, e das diversas edições em português (duas no Brasil), vinha adiando a leitura de Ishmael Beah. Afinal, este seria o meu terceiro livro sobre meninos-soldados num país africano.* O que ele me traria de novo?

Sabemos que a decisão sobre se um livro deve ou não ser publicado decorre sempre de interesses mercadológicos. Quanto mais polêmico o tema, maior o potencial de um livro vender, portanto maiores as chances de o autor ser editado. Esta limitação à lógica capitalista certamente condena milhões de escritores ao redor do mundo a jamais encontrarem uma editora, sobretudo quando se trata de autores oriundos de países excluídos do mapa cultural. Como resultado, grande parte dos romances africanos que tenho encontrado inserem-se fatidicamente nas mesmas velhas temáticas: a guerra, o massacre, e a miséria. Não que não se trate de sujeitos importantes. Contudo, está claro que a literatura africana não é – e nem poderia ser – só isso! Onde está a boa e bela literatura desengajada, atemporal e universal?

À revelia desta e de outras reflexões, chegou esta semana a vez de Serra Leoa. E é preciso dizer que, ao explorar mais do mesmo, Muito longe de casa traz-nos sem sombra de dúvidas algo ainda não visto. Afinal, não estamos diante de um romance, mas sim de um testemunho (palavra que eu odeio, porque geralmente exclui o valor poético e literário de uma obra) em primeira pessoa, escrito por não apenas uma testemunho ocular, mas também por um agente diretamente envolvido na guerra que nos tenta reconstruir. Mas não é só isso: a boa surpresa é que a experiência de Beah como soldado abarca menos de 20% do livro. Antes disso, temos um detalhado relato do que foi a sua vida desde que seu vilarejo foi tomado pelos rebeldes, perambulando esfomeado por cerca de um ano, a fugir da morte em cada esquina. Depois, uma igualmente extensa exposição de seu lento processo de redenção, de sua ascensão a porta-voz da Serra Leoa numa conferência da ONU em Nova Iorque, e da sua fuga à vizinha Guiné Konakri quando a guerra voltou a bater na sua porta.

Embora alguns dos fatos narrados sejam tão inacreditáveis que quase se poderia pensar numa peripécia literária (por exemplo, o fato de o vilarejo onde sua família se encontrava ter sido inteiramente destruído apenas poucos minutos antes de ele lá chegar, depois de um ano de separação), o que Ishmael Beah alcança com seu relato pungente é justamente o oposto do que eu havia temido: uma total e absoluta desromantização da guerra e de seu suposto heroísmo. Em vez disso, o ex-menino-soldado apaixonado por Shakespeare e de forte veia poética oferece-nos um relato sincero e sem rodeios das consequências de um conflito para os seus envolvidos, sobretudo no que diz respeito à dissolução do humano e à banalização da morte.

Pelo seu caráter honesto, mas também pelo fato de que se trata de um livro realmente envolvente e bem escrito, Muito longe de casa deveria se tornar uma leitura obrigatória.

* Para quem perdeu as outras resenhas:

Alá não é obrigado, de Ahmadou Kouroumá (Costa do Marfim)

Beneath the Darkening Sky, de Majok Tulba (Sudão do Sul)

 

Título original: A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier

País: Serra Leoa

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Título brasileiro: Muito longe de casa: Memórias de um menino-soldado

Edição brasileira: Ediouro (ISBN 978-850-0021-21-3)

Edição brasileira 2: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5925-42-5)

Título português: Uma longa caminhada: Memórias de um menino soldado

Edição portuguesa: Casa das Letras (ISBN 978-972-4617-27-5)

Número de páginas: 224 (Ediouro), 256 (Companhia das Letras), 284 (edição portuguesa)

História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, de Luis Sepúlveda

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Embora esteja pela primeira vez em dois anos repetindo um país, esta semana teve que ser. Explico-me: foi uma semana particularmente apertada, na qual estive responsável por 21 pré-adolescentes 24 horas por dia; portanto, entende-se que tinha que ser um livro fácil. Por outro lado, minha decisão por este livro justifica-se facilmente. Afinal, trata-se de uma historieta de valor inigualável, e de um dos mais belos livros da literatura do século XXI, que o meu leitor – sobretudo num dia sombrio como este – merece conhecer: a novela História de um gato e de um rato que se tornaram amigos, do grande mestre chileno Luis Sepúlveda.

Sepúlveda, que já tinha encantado o mundo em 1996 com a história de outro gato, Zorbas, que ensinava uma pequena gaivota órfã a voar, publicou recentemente a fábula de uma amizade improvável, repleta de filosofia e de frases inesquecíveis. A história se passa na cidade de Munique, na Alemanha, onde um pequeno gato negro de peito branco e perfil grego chamado Mix cresce ao lado de seu amigo humano, o menino Max. Com o tempo, o menino se torna homem, deixando a casa dos pais, e mudando-se com o amigo gato para um pequeno apartamento no topo de um prédio. Mix, que já não tem mais a vitalidade de outrora, começa aos poucos a perder a visão. Sem que se dê conta, a cegueira tolhe-lhe as liberdades de gato, impossibilitando seus passeios pelo topo dos prédios, e fazendo com que seus dias transcorram sempre iguais. A monotonia, no entanto, é quebrada pela chegada de Mex, um pequeno e falador ratinho mexicano, fugido de uma gaiola de vidro diretamente para a biblioteca de Max. Assim, os dois animaizinhos passam a coabitar e a compartilhar suas experiências de vida, aprendendo com as diferenças e enriquecendo seus cotidianos por meio do respeito e do companheirismo.

Estamos diante de uma história para crianças, ou de um livro para adultos fantasiado de infantil? Nem uma coisa nem outra, ou as duas ao mesmo tempo: sua mensagem singela, bem como seu valor universal, fazem que ele ecoe no imaginário de qualquer faixa etárea. Com o tempo, estou segura de que esta novela acabará por se tornar num clássico do valor de O Pequeno Príncipe. Para isso, no entanto é preciso descobri-la. Leiam-na, releiam-na, ofereçam-na. A todos aqueles que reconhecem o valor de uma verdadeira amizade. E a todos aqueles que merecem o reconforto de uma boa história.

 

Título original: Historia de Max, de Mix y de Mex

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2012

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN: 978-972-0044-80-8)

Número de páginas: 64

A virgem fria e outros contos, de Jørn Riel

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É tão difícil para um leitor experiente surpreender-se com um livro como o é para um viajante experiente surpreender-se com um novo lugar. Em ambos os casos, é preciso ir cada vez mais longe para se chegar ao inesperado. E que lugar é, afinal, mais longe que a Groenlândia?

Depois de muito procurar, parecia-me que encontrar um livro groenlandês seria uma tarefa beirando o impossível: se quase nada do pouco que é escrito na ilha gigante ao norte do mundo encontra-se traduzido do groenlandês para o dinamarquês, que dirá para outras línguas mais acessíveis? Ao fim e ao cabo, pareceu-me que um autor nascido na Dinamarca, mas que passou boa parte de sua vida (16 anos) numa base científica no norte do país habilitava-se bem ao quesito. Afinal de contas, embora haja vida no topo do mundo, trata-se normalmente de gente de passagem: das cerca de 50 mil pessoas que vivem na Groenlândia (0,03 por m2!), poucas, bem poucas nasceram efetivamente na ilha.

A virgem fria e outros contos consiste numa peculiar compilação de uma dezena de histórias, todas elas em torno das mesmas personagens: um grupo de caçadores e aventureiros habitando o inóspito norte da Groenlândia. Embora obviamente não existam habitantes nativos nesses confins, eles são aquilo que mais facilmente poderíamos chamar de “homens do ártico”, uma vez que sua origem e seu passado parecem não ter a menor importância neste espaço no qual tempo e espaço encontram-se em suspensão. Trata-se de histórias divertidas, inteligentes, mas sobretudo humanas, centradas muito menos em atos extraordinários ou feitos memoráveis, e mais na banalidade de um cotidiano totalmente fora do nosso normal.

Nesse universo de gelo, a solidão e o isolamento extremo fazem com que as regras do mundo “civilizado” deem lugar a uma série de códigos próprios, adaptados para melhor servir ao ambiente inóspito em que vivem. Mais surpreendente chega a ser o fato de que, em vez de constituírem comunidades, estes homens prefiram o isolamento, chegando a habitar sozinhos por meses a fio em um fiorde perdido no meio do nada, acompanhados dos ursos polares, raposas e focas que caçam para sobreviver. Quando se cansam de sua solidão – ou por exemplo quando sofrem pela perda de um galo de estimação –, empreendem viagens de semanas até chegar ao próximo vilarejo de um único habitante, onde entretêm-se a esvaziar a alma e a embebedar-se até cansarem de companhia e preferirem o silêncio do monólogo interior. Quando falece um companheiro, podem amarrar o cadáver sentado a um trenó e sair passeando com ele numa espécie de cortejo funerário festivo por semanas a fio. Quando se apaixonam, é por mulheres inventadas pela imaginação de um eventual companheiro, com quem conviverão num mundo inventado beirando a loucura. E quando decidem adotar os parâmetros da civilização, construindo por exemplo uma latrina, quase terminam arruinados, de tão habituados a viverem fora dela.

Ao longo de 150 páginas, Jørn Riel dá-nos a conhecer um universo tão inimaginável que poderia se tratar de ficção científica, mas ao mesmo tempo tão humano que nos remete ao mais íntimo que há em nós. Um universo que merece ser descoberto – nem que seja por meio da leitura –, e que de tão apaixonante até se tornou história em quadrinhos:

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PS: Antes mesmo de terminar a leitura, eu já tinha ido espiar os preços de voos para a Groenlândia! Alguém se habilita a me acompanhar?

 

Título original: Den kolde jomfru og andre skrøner

País: Groenlândia

Idioma original: dinamarquês

Ano de publicação: 1973

Edição em português: não encontrada

Título francês: La virge froide et autres racontars

Edição francesa: Domaine Étranger (ISBN 978-226-4022-94-3)

Número de páginas: 157 (edição francesa)

O dia seguinte, de Rhidian Brook

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Uma viagem de 12 horas, seguida por 8 de espera num aeroporto nada convidativo, e de mais 2 e meia até chegar em casa – eis o pesadelo de qualquer mortal. A menos que se tenha uma excelente companhia. A minha ontem foi o romance O dia seguinte, do escritor galês Rhidian Brook.

Vinha adiando a leitura deste livro porque não sou nem nunca fui uma grande apreciadora de romances históricos, sobretudo quando passados durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, fui agradavelmente surpreendida pelo fato de que O dia seguinte não é mais um livro sobre este tema já batido, mas sim sobre o pós-guerra, ou a tentativa de restabelecimento da Alemanha um ano após a derrocada de Hitler. Para escreve-lo, Brook inspirou-se no próprio avô, que, chamado para ocupar um cargo militar em Hamburgo em 1946, recusou-se a expulsar da mansão a si atribuída a família que lá vivia, optando por coabitar com os antigos inimigos.

Eis a ‘aberração’ – do ponto de vista britânico na época – cometida por Lewis, um dos protagonistas da trama, responsável por trazer a democracia e garantir o processo desnazificação no norte da Alemanha. Recém-chegado a uma Hamburgo em ruínas, o antigo herói de guerra tem a difícil função de reconstruir o país que ajudou a aniquilar, mas comporta-se de maneira oposta a seus conterrâneos: Lewis demonstra compaixão pelos sobreviventes alemães. Atitude, aliás, oposta à de sua esposa Rachael, cega de ódio pelo povo que matou seu filho mais velho, e incomodada pela suntuosidade da vila à beira do Elba que a família passa a habitar. A convivência forçada com os antigos proprietários da mansão, um atraente arquiteto alemão e sua revoltada filha adolescente, serve no entanto para apaziguar a fria senhora e devolver todos à vida.

A trama, que se desenrola de forma novelesca, apresenta a história sob o ponto de vista de várias personagens, entre principais e secundárias, oferecendo-nos um panorama do que terá sido viver em meio aos escombros de uma Alemanha vencida. Entre órfãos da guerra (Trümmerkinder) e nazistas camuflados, todos exaustos e famintos, a aversão aos novos colonizadores faz gerar a rebelião e a nostalgia pelo retorno do Führer, sobretudo à medida em que forasteiros ideologicamente programados desprezam os vencidos e os tratam como ratos.

É certo de que Rhidian Brook não escreveu nenhum futuro clássico da literatura ocidental. Muito pelo contrário: o livro é cheio de reviravoltas rocambolescas, personagens pouco profundas, e situações tão previsíveis que quase se tornam inesperadas. É um livro, enfim, descartável, desses feitos para um leitor mediano. No entanto, trata-se ainda assim de um romance bem escrito, cuja trama é viciante, e que nos permite repensar a História. Para mim, conhecedora (e crítica) que sou da cultura alemã, sobreveio a admiração, ao lembrar-me de que o país que é hoje um dos carros-fortes da economia global, e um dos maiores defensores da União Europeia, foi há tão pouco tempo o inimigo público número um, que estrangeiros de todo o mundo aprendiam na escola a temer e a desprezar. Admiração por este país que, citando, “não [estava] acostumado a debater”, mas que não apenas “encontrou sua voz”, como tornou-se um dos maiores oradores de uma Europa pacífica e sem fronteiras.

Tudo isso são divagações minhas, e não chega a ser abordado no livro de Brook. No entanto, costumo dizer que um livro que faz viajar para além dos seus limites, que faz pensar e revisitar paradigmas, que abre pontes para analogias, deve ser sempre vivamente recomendado.

Nada como um bom best-seller para fazer uma viagem longa e aborrecida tornar-se numa experiência memorável!

 

Título original: The Aftermath

País: País de Gales

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Título brasileiro: O dia seguinte

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN: 978-858-0575-92-7)

Título português: O despertar do mundo

Edição portuguesa: Asa (ISBN: 978-989-2325-37-8)

Número de páginas: 272 (edição brasileira), 328 (edição portuguesa)

Dogeaters, de Jessica Hagedorn

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Enquanto no Brasil a flutuante (e debutante) classe média convulsiona com medo de perder o pedestal e se deixa embalar por delírios midiáticos de golpe de Estado, o livro desta semana faz lembrar o que o “país do futuro” era até bem pouco tempo atrás – uma paradisíaca terra sem lei, marcada pelo contraste entre os muito ricos e os muito pobres. Estamos falando das Filipinas.

Dogeaters, ou “Comedores de cachorro”, foi escrito pela autora filipina Jessica Hagedorn em 1990, uma época em que o seu país ficava conhecido mundialmente pela corrupção deslavada e pela singela coleção de 3.000 pares de sapatos de sua primeira-dama. Enquanto o país engatinhava rumo a uma democracia experimental, a então jovem e ousada escritora radicada nos Estados Unidos oferecia-nos, em inglês, um panorama dos paradoxos históricos de sua terra natal.

Ambientado na década de 1950, romance é composto por uma série de fragmentos da vida cotidiana na cidade de Manila, abarcando desde empregados de loja e prostitutas até políticos de alto-escalão, diretores de cinema internacionais e estrelas de TV. Tendo como moldura as memórias de Rio Gonzaga, uma pré-adolescente abastada, futuramente imigrada (como a autora) para os Estados Unidos, o livro revela-nos as diferentes faces de um país fraturado. Regido por uma elite que se gabava de sua ascendência ariana e costumes europeus, enquanto renegava as idiossincrasias de sua rica cultura de origem, o livro apresenta-nos, com seu olhar aquilino, um retrato ácido e irônico de uma sociedade onde a miséria extrema, a tortura e a exploração sexual infantil convivem lado a lado com as soirées requintadas de uma elite cega e cínica.

Num ano marcado até agora por leituras relativamente medíocres, Dogeaters destaca-se como um livro bom em diferentes sentidos. Sua trama fragmentária, cujo recorte do mundo faz lembrar uma telenovela, flerta com os diferentes gêneros literários, desconstruindo a narrativa romanesca tradicional através de um forte experimentalismo narrativo. Ao mesmo tempo que testa os limites do gênero, Hagedorn o expande e constrói um romance inovador. Afinal, partindo da concepção tradicional do termo, o gênero romanesco caracteriza-se pela sua plurifomidade, bem como pela capacidade de construir um microcosmo perfeito, produzindo um recorte exemplar da realidade que descreve. Como resultado, o leitor de Dogeaters terá diante de si não apenas um texto empolgante e facilmente envolvente, mas também uma verdadeira aula de introdução à sociedade filipina. Trata-se, certamente, de uma realidade geográfica e culturalmente deveras distinta da nossa, mas que, tanto pela sua história recente de um pós-colonialismo mal resolvido, quanto pelas paisagens tropicais, ensolaradas e pseudodemocráticas, remetem-nos de imediato aos desmazelos das terras de cá.

Se ler nos faz viajar para mundos distantes, Dogeaters oferece-nos um exemplo preciso do que as viagens podem nos trazer de melhor, que é a capacidade de traçar paralelos e analisar criticamente nossa própria realidade. Por isso, e sobretudo numa época regida pela desinformação e pela incompetência analítica do cidadão comum, recomendo-o como um contributo essencial a toda biblioteca que se preze.

 

Título original: Dogeaters

País: Filipinas

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição inglesa: Open Road Media, Kindle Edition (ASIN: B00-DZE-JQ9-O)

Edição em português: não há

Número de páginas: 276

Solo d’un revenant, de Kossi Efoui

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A literatura togolesa é certamente uma das mais desconhecidas do mundo. Na verdade, pouco conhecemos acerca deste pequeno país tropical no norte da África, limitado por Gana, Burkina Fasso e pelo Benin. Kossi Efoui, romancista, dramaturgo e cronista de expressão francesa nascido no interior do país, é considerado um dos mais prolíficos escritores africanos da atualidade, sobretudo graças ao premiado romance Solo d’un revenant.

Talvez a mais forte impressão deixada por este livro peculiar seja o calor incessante que o perpassa de forma pungente. Situado em um país do interior africano, a narrativa descreve o retorno de um homem à terra natal dez anos após ter imigrado em consequência de uma brutal guerra civil. Ao chegar, instala-se num hotel enquanto se coloca à procura de uma pessoa que outrora conhecera. Mas a realidade à qual é confrontado é muito diferente daquela que tinha deixado uma década antes. Trata-se, afinal, de um país cujas recentes feridas abertas pela guerra foram mal cicatrizadas, dando lugar a uma sociedade na qual antigas vítimas e algozes são obrigadas a conviver lado a lado, e a reconstruir os escombros juntos como se nada tivesse acontecido.

Embora o local exato onde a trama decorre não seja nomeado, a descrição faz pensarmos na Ruanda de após os massacres que transformaram a metade do país em assassinos sanguinários, perseguindo e matando os próprios vizinhos, com um total de meio milhão de mortos em apenas três meses. Verdade é, no entanto, que a localização e o contexto exatos pouco importam ao escritor Kossi Efoui, já que o seu objetivo principal é explorar os elementos comuns da história recente dos países africanos, promovendo assim o chamado panafricanismo. No contexto da proposta narrativa que move Solo d’un revenant, este objetivo é alcançado sobretudo devido ao flerte entre a ficção e a realidade, permitindo com que as personagens adquiram uma verossimilhança ímpar, ao mesmo tempo em que se desenvolvem como uma espécie de alegoria das tragédias contemporâneas.

Tudo isso parece muito interessante, e de fato o é. No entanto, o que me incomoda neste romance, como também em uma grande parte nos romances africanos contemporâneos escritos em língua francesa, é o excesso extremo de experimentalismo com a linguagem, em detrimento do próprio enredo. Devido às mudanças abruptas de foco narrativo, torna-se  difícil acompanhar a história, o que diminui em parte o prazer da leitura.

Em todo caso, nem que seja pelo exotismo de termos diante dos olhos um romance da República Togolesa, fica aqui registrada a recomendação.

 

Título original: Solo d’un revenant

País: Togo

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2008

Edição francesa: Seuil (ISBN: 978-202-0971-93-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 207

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron

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Para compensar o fato de que domingo passado não teve resenha (por motivos de saúde, esclareço, afinal o livro da semana foi lido sim, senhores!), voltamos à quarta-feira premiada, sendo o bônus de hoje um dos meus livros brasileiros contemporâneos preferidos – ou talvez, simplesmente, “o” meu preferido: A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, do escritor mato-grossense Joca Reiners Terron.

Lançado há apenas três anos, este romance curto e viciante flerta com o realismo fantástico argentino enquanto se banha em altas doses de E.T.A. Hoffmann e Edgar Allan Poe. O resultado, no entanto, é sem dúvida exclusivamente tupiniquim. Oscilando constantemente entre a realidade e o sonho – ou talvez seja melhor dizer pesadelo –, a trama é dividida em sete partes, nas quais se entrecruzam as vidas de personagens distintas em torno de um grande mistério: quem será a criatura misteriosa que habita um antigo casarão mal-assombrado em pleno bairro do Bom Retiro, na cidade de São Paulo? O ser, identificado como sendo do sexo feminino, apesar de ser constantemente chamado de “criatura”, tem o tamanho e a fragilidade de uma menina de cinco anos, mas a sua pele carcomida por uma doença rara faz dele um monstro de aparência assustadora. Exímia desenhista, a criatura entretém-se no seu exílio forçado, acompanhada somente de uma enfermeira especializada em doenças terminais, em desenhar leopardos-das-neves. Diante da notícia de que um desses belíssimos animais, capturado das tundras siberianas, encontra-se em cativeiro no zoológico de São Paulo, a bondosa enfermeira decide levar sua protegida para um safári noturno que certamente não terá um final feliz.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, ou quem sabe ainda numa realidade paralela, um escrivão da polícia mulato, filho de um judeu e de uma prostituta, intercala noites insones de trabalho numa delegacia com dias intermináveis a cuidar do pai demente, um homem seco que parece nunca se ter dado conta de sua existência. Ainda se encontra por ali um taxista psicopata, cuja menina dos olhos são três cães assassinos, transformados por ele numa verdadeira máquina de guerra. Enquanto o homem se encontra à procura de sua próxima vítima, a criatura moribunda se prepara para o seu derradeiro passeio.

Empolgante e original, o romance de Terron destaca-se por fugir completamente do lugar-comum em que se encontra o romance urbano brasileiro, com seus intermináveis retratos da miséria humana exacerbada pelos noticiários da Rede Globo. Para mim, o livro se destaca não apenas pela boa história, mas sobretudo pela sua força narrativa. O estado de sonambulismo de suas personagens transpassa a história contada e se revela no cerne da própria narração, de modo a fazer qualquer leitor perder o sono para poder chegar ao final de uma só assentada.

Quem ainda não estiver convencido de que esta é a leitura perfeita para o feriado da Páscoa, pode-se deixar embalar pelo trailer (essa moda de trailer de livros parece que está mesmo a pegar!):

 

Título original: A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5922-34-9)

Edição portuguesa: não encontrada

Número de páginas: 176

Herege, de Ayaan Hirsi Ali

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É raro que um livro publicado em inglês seja lançado quase simultaneamente no Brasil. Mais raro ainda em se tratando de um livro teórico que debate um tema que nem de longe faz parte da realidade imediata do brasileiro médio. No entanto, a pressa editorial justifica-se facilmente: livros polêmicos sobre o extremismo islâmico vendem bem.

Ayaan Hirsi Ali é mais que conhecida. Sua biografia, na qual relata sua trajetória de islamista devota a respeitada parlamentar da centro-direita holandesa, tornou-se um best-seller comemorado pelos liberais de vários países ocidentais: Finalmente uma mulher muçulmana com culhões para denunciar as atrocidades cometidas em nome de Alá! Herege, seu último livro, foi afortunadamente lançado pouco depois dos ataques ao hebdomadário francês “Charlie Hebdo”, que ela ainda conseguiu incluir em seu extenso inventário de crimes cometidos pelos adoradores de Maomé.

O livro visa provar a tese de que o islã não é uma religião de paz, como normalmente apregoa a esquerda hippie dos países desenvolvidos, mas que a violência lhe é inerente. A violação aos direitos humanos, segundo ela, encontra-se no seu cerne, uma vez que seu livro sagrado, o Corão, descreve um conjunto de regras tribais arcaicas que legitimam o estupro, o linchamento, a submissão feminina, a guerra santa e a imposição forçada de uma pretensa moralidade. Tudo isso é ricamente ilustrado com notícias sensacionalistas das principais comunidades islâmicas, que fazem da violência nas favelas cariocas uma brincadeira de crianças. A ideologia islâmica, diz a autora, ameaça concretamente os direitos adquiridos em séculos de luta no Ocidente, sobretudo agora que as ondas de refugiados trazem consigo futuros potenciais terroristas,* e tendo em conta que os árabes têm muito mais filhos que os ocidentais. Seremos, em breve, excedidos em números em nossas próprias casas, a menos que abramos os olhos e deixemos de ser condescendentes. Afinal, diz ela, o islã odeia seus inimigos mais do que ama seus filhos.

Eis o único aspecto no qual concordo com Ali: O Corão – como já antes a Torá e o Antigo Testamento – está cravado de passagens violentas que, tomadas ao pé da letra por fanáticos, justificam atentados terroristas, e servem de base a grupos como o Estado Islâmico, a Al-Qaïda e o Boko Haram. Ler os textos sagrados literalmente e tentar viver conforme seus ditames é prova de um anacronismo grotesco que não pode ser tolerado. Não podemos aceitar que as meninas do Iêmen se casem aos seis anos de idade porque o “profeta” também o fez, não podemos tolerar as perseguições aos homossexuais, a subjugação das mulheres, o delírio de um califado e o apelo da jihad porque “está escrito”.

Por outro lado, não podemos, ao tomar esses exemplos, deixar comodamente de fora todos os outros nos quais o islamismo provou-se condizente com o século XXI. Por exemplo a Malásia, regida pelo multiculturalismo. Ou a Turquia, o Marrocos, o Senegal, a Bósnia, a Albânia – a lista é longa. Em seu afã progressista, ela se atém à história única de que já falava Chimamanda, e se esquece que a história é cíclica, e que na Idade Média éramos nós os brutamontes e os árabes o pináculo cultural e tecnológico. Que talvez nem tivéssemos chegado à Renascença não fosse a Escolástica, baseada na filosofia grega que eles salvaram para nós.

Mais do que isso, não podemos esquecer, ao louvarmos o avançado Ocidente, de que ele próprio é culpado por muito do imbróglio nos países islâmicos. Tomemos como exemplo o Afeganistão, destinação turística preferida dos bichos-grilos dos anos 1970, e onde as mulheres gozavam de direitos iguais durante a dominação soviética. Quem foi que armou a então minoria ultra religiosa até os dentes, e a botou para lutar contra os capacetes vermelhos, senão os Estados Unidos? Minoria, aliás, que mais tarde ganhou força e se tornou o Talibã. Devemos chamar de kharma ou de efeito borboleta?

Mais que a falta de contextualização histórica, o que me incomoda no livro de Ali são as suas incoerências, como a voz narrativa que adere ora ao “nós” muçulmanos e ora ao “nós” ocidentais. Para não falar da anticlimática conclusão: A autora passa 220 páginas a fazer-nos um terrorismo psicológico, alegando que nosso mundo está ameaçado, que devemos abrir os olhos, que os árabes nos odeiam, para no fim… nada! Em vez de propor uma solução ou fazer sugestões concretas, ela prefere tranquilizar-nos dizendo que afinal as coisas não são tão más assim, e que a reforma já está em marcha, graças a dissidentes corajosos como ela. O que aliás até é verdade.

Ayaan Hirsi Ali consegue ser mais branca que o Michael Jackson, e seu discurso mais ferino que o de Marine Le Pen. Mas seu livro, se lido com olhos críticos, não deixa de ser interessante, sobretudo quando põe em causa a permissividade da esquerda pró-multiculturalismo, que tapa o sol com a peneira e acaba defendendo o algoz e não a vítima. Ela tem toda a razão quando fala que não se pode defender quem não defende os direitos humanos. Para mim, pessoalmente, foi um tapa na cara. Para a maioria dos leitores, no entanto, ele só vai confirmar a ideia preconcebida de que os islamistas são um povo retrógrado, selvagem e preso na Idade Média. O que está longe de ser verdade.

 

* Fez pensar na charge polêmica do Charlie Hebdo. Mas essa, pelo menos, continha ironia.

topelement

 

Título original: Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now

País: Somália

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2015

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5925-87-6)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 272