Assando bolos em Kigali, de Gaile Parkin

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Alguns livros são amor à primeira vista. Outros, no entanto, exigem de nós um certo esforço, um apuramento do paladar de modo a apreciar sua grandeza. Assando bolos em Kigali, da autora zâmbia (branca) Gaile Parkin, não foi de maneira alguma um caso de paixão fulminante. Muito pelo contrário: seu excesso de small talks, suas descrições intermináveis, bem como seu tom excessivamente didatizante, chegaram mesmo a me tirar do sério nos primeiros tempos, e a julgar que nunca mais o acabaria. Até que eu me desse conta de que sua beleza reside justamente naquilo que me havia incomodado a princípio.

Assando bolos em Kigali é um romance  cuja estrutura se desenrola de maneira similar a uma telenovela, tendo como eixo central a figura materna e benfazeja de Angel, uma avó quarentona da Tanzânia, proprietária de uma pâtisserie no coração de Kigali, capital do Ruanda. Seus clientes, oriundos das mais distintas classes sociais, são estrangeiros expats, funcionários das Nações Unidas, esposas de diplomatas, mas também pessoas simples, como soldados, enfermeiras e professores locais, bem como imigrantes indianos, árabes e de boa parte da África Central. Atraídos por seus excelentes dotes culinários, bem como pelo seu inigualável talento como conselheira, essas pessoas encontram em Angel uma interlocutora fiel e discreta, a quem confiam seus maiores segredos em torno de uma boa xícara de chá. Através da história individual de cada um de seus clientes, a simpática business woman é capaz não apenas de lhes criar um bolo absolutamente sob medida, mas também sair por aí fazendo pequenos remendos na vida cotidiana, pequenos atos de simpatia e bondade capazes de transformar pouco a pouco o mundo à sua volta.

Tudo isso é narrado, como dito anteriormente, num excesso de detalhes e numa lentidão capazes de incomodar o leitor mais afoito, daqueles que se encontram sempre à espera do clímax. Verdade seja dita, não se pode falar aqui de um ponto alto propriamente dito, exceto talvez pelo desenvolvimento progressivo da própria protagonista. Ao se confrontar com os dramas e tragédias pessoais de cada um de seus fregueses – muitos deles envolvidos diretamente no massacre dos tutsis pelos hutus na década de 1990 –, Angel torna-se capaz de enfrentar seus próprios fantasmas, permitindo-se o privilégio do luto, bem como da perda e do perdão. E chega a ser belo, se não um tanto clichê, que o consolo para uma mulher tão sábia venha justamente das palavras de uma jovem prostituta, dessas que fazem pensar na trágica Geni de Chico Buarque.

Ao fim de mais de 300 páginas, não sei dizer se Gaile Parkin é uma autora de verdadeiro talento, ou se o sucesso de seu livro tenha sido fruto de sorte. Afinal, aquilo que me pareceu a princípio ser o seu maior defeito acabou por se tornar a sua principal qualidade. Pois os seus longos diálogos, repletos de repetições e de detalhes aparentemente desnecessários, fazem o que quase nenhum outro livro africano tinha sido até agora capaz de fazer: transportar-me diretamente ao centro da narrativa. Suas descrições detalhadas incidem na memória de modo a que vejamos as cenas como se de um filme se tratasse, e chegássemos mesmo a sentir o perfume dos bolos de Angel. A estrutura novelesca permite a criação de um panafricanismo consciente, de uma exaltação dos aspectos que unem os diversos povos que se entrecruzam, negando assim as barreiras forjadas (pelos brancos) que serviram por séculos para os separar. E, por fim, a falta de pressa da narrativa faz-nos lembrar a temporalidade distinta dos povos menos desenvolvidos, muito menos sobrepujados pelo inexorável relógio, muito mais dispostos a se dedicar àquilo que na vida realmente é importante. Como uma boa xícara de chá tomada com os amigos.

Como se não bastasse, ainda podemos louvar o fato de que o livro, de forte teor feminista, aborda sobretudo questões relacionadas ao empoderamento das mulheres, numa sociedade na qual o feminismo ainda é visto com olhos fortemente desconfiados.

Um livro, afinal, perfeito para o dia de hoje: Feliz dia das mães!

Título original: Baking Cakes in Kigali

País: Zâmbia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Globo (ISBN: 9788525046987)

Número de páginas: 320

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