Negro e prata, de Paolo Giordano

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Eu sempre fui uma rebelde. Na adolescência, embora passasse pelo menos 60% do meu tempo livre lendo, nunca lia aquilo que os professores pediam. Preferia (e ainda hoje prefiro) Crime e Castigo, Os três mosqueteiros e Jane Eyre a Amor de perdição, Iracema e Lucíola. Por isso, embora aos quinze anos já tivesse lido mais que todos os meus colegas de classe juntos, minhas notas nas chamadas “provas do livro”, baseadas como as deles em resumos, nunca foram as melhores.

Mas a menina rebelde tornou-se uma adulta com senso de responsabilidade. Por isso, embora já tenha lido a Itália, dediquei-me esta semana ao meu primeiro livro italiano lido em língua italiana. Tinha mesmo que ser: em breve, terei de fazer uma temida “prova do livro” sobre ele. Por sorte, a leitura de Paolo Giordano transformou o senso de obrigação num prazer inigualável. Tanto pelo deleite da bella língua em que foi escrito, quanto pela deliciosa descoberta de uma das personagens mais bem desenvolvidas da literatura contemporânea.

Eles a chamam Senhora A., ou Babette, jamais pelo seu verdadeiro nome. Viúva, 68 anos, sem filhos. Da vida privada, só lhe conhecemos um amigo anão. Ela é uma espécie de ama, misto de empregada doméstica, babá e secretária do lar, agregada tão íntima à família que eles mesmos (mas não ela!) se confundem, e já não sabem se ela trabalha de fato ou se os serve por prazer, como se se tratassem de filhos adotivos. Sua retribuição financeira lhe é paga semanalmente, segundo uma tabela obtusa que só a patroa compreende – e que ela nunca questiona. Mas mais que organizar a vida do jovem casal e de seu filho pequeno, a “nossa Babette” serve como pilar de sustentação para relações familiares que só se descobrirão frágeis e repletas de rancor quando ela se ausentar por definitivo.

Negro e prata é um romance curto, escrito em primeira pessoa segundo a perspectiva do pai da família, e trata de um intrincado jogo de relações humana tão conhecido por qualquer brasileiro, mas quase inexistente no Velho Continente – as relações entre patrões e empregados domésticos. Relações estas que se desdobram num caleidoscópio de sentimentos a partir do dia em que a Senhora A. telefona para lhes dizer que já não virá mais. Ela está doente, muito doente, e ainda lhe restam poucos meses de vida. Eventualmente, a doença fará com que eles a vejam pela pessoa que é, ou ao menos que se dêem conta de que nunca a tinham visto. Até lá, no entanto, eles terão de aprender a lidar com um forte sentimento de rejeição, como mimados filhos adultos postos para fora de casa, e reorganizar os escombros de suas vidas, mantidas intactas ao longo dos anos graças à presença pacificadora da ama do lar.

Nascido em Torino em 1982, Paolo Giordano é um autor jovem que escreve como um velho. Sua escolha acertada das palavras, sua linguagem límpida, porém repleta de entrelinhas, faz com que nos sintamos a ler um sábio de 80 anos, e não um menino de 30. Seu livro é um daqueles que quase já não se fazem, focados muito mais na profundidade psicológica de suas personagens que na trama propriamente dita. Pela sua análise ponderada das relações humanas, pela sua gentil dissecação dos laços de família, bem como pela acertada criação narrativa de personagens fortes e inesquecíveis, temos aqui um romance que merece ser saboreado como um bom vinho do Piemonte.

Embora tenha sido lançado há apenas dois anos, Negro e prata já foi traduzido para uma dezena de línguas, dentre as quais o português. Vale a pena conferir!

Mais tarde vos conto a nota da minha “prova do livro”!

Título original: Il nero e l’argento

País: Itália

Idioma original: Italiano

Ano de publicação: 2014

Edição portuguesa: Relógio d’Água (ISBN 978-989-6415-24-2)

Número de páginas: 120

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