Muito longe de casa, de Ishmael Beah

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Depois de quase 100 livros de países diferentes, é fácil a leitura se tornar repetitiva. Por isso, apesar das incontáveis críticas favoráveis, das traduções em todas as línguas possíveis, e das diversas edições em português (duas no Brasil), vinha adiando a leitura de Ishmael Beah. Afinal, este seria o meu terceiro livro sobre meninos-soldados num país africano.* O que ele me traria de novo?

Sabemos que a decisão sobre se um livro deve ou não ser publicado decorre sempre de interesses mercadológicos. Quanto mais polêmico o tema, maior o potencial de um livro vender, portanto maiores as chances de o autor ser editado. Esta limitação à lógica capitalista certamente condena milhões de escritores ao redor do mundo a jamais encontrarem uma editora, sobretudo quando se trata de autores oriundos de países excluídos do mapa cultural. Como resultado, grande parte dos romances africanos que tenho encontrado inserem-se fatidicamente nas mesmas velhas temáticas: a guerra, o massacre, e a miséria. Não que não se trate de sujeitos importantes. Contudo, está claro que a literatura africana não é – e nem poderia ser – só isso! Onde está a boa e bela literatura desengajada, atemporal e universal?

À revelia desta e de outras reflexões, chegou esta semana a vez de Serra Leoa. E é preciso dizer que, ao explorar mais do mesmo, Muito longe de casa traz-nos sem sombra de dúvidas algo ainda não visto. Afinal, não estamos diante de um romance, mas sim de um testemunho (palavra que eu odeio, porque geralmente exclui o valor poético e literário de uma obra) em primeira pessoa, escrito por não apenas uma testemunho ocular, mas também por um agente diretamente envolvido na guerra que nos tenta reconstruir. Mas não é só isso: a boa surpresa é que a experiência de Beah como soldado abarca menos de 20% do livro. Antes disso, temos um detalhado relato do que foi a sua vida desde que seu vilarejo foi tomado pelos rebeldes, perambulando esfomeado por cerca de um ano, a fugir da morte em cada esquina. Depois, uma igualmente extensa exposição de seu lento processo de redenção, de sua ascensão a porta-voz da Serra Leoa numa conferência da ONU em Nova Iorque, e da sua fuga à vizinha Guiné Konakri quando a guerra voltou a bater na sua porta.

Embora alguns dos fatos narrados sejam tão inacreditáveis que quase se poderia pensar numa peripécia literária (por exemplo, o fato de o vilarejo onde sua família se encontrava ter sido inteiramente destruído apenas poucos minutos antes de ele lá chegar, depois de um ano de separação), o que Ishmael Beah alcança com seu relato pungente é justamente o oposto do que eu havia temido: uma total e absoluta desromantização da guerra e de seu suposto heroísmo. Em vez disso, o ex-menino-soldado apaixonado por Shakespeare e de forte veia poética oferece-nos um relato sincero e sem rodeios das consequências de um conflito para os seus envolvidos, sobretudo no que diz respeito à dissolução do humano e à banalização da morte.

Pelo seu caráter honesto, mas também pelo fato de que se trata de um livro realmente envolvente e bem escrito, Muito longe de casa deveria se tornar uma leitura obrigatória.

* Para quem perdeu as outras resenhas:

Alá não é obrigado, de Ahmadou Kouroumá (Costa do Marfim)

Beneath the Darkening Sky, de Majok Tulba (Sudão do Sul)

 

Título original: A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier

País: Serra Leoa

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2007

Título brasileiro: Muito longe de casa: Memórias de um menino-soldado

Edição brasileira: Ediouro (ISBN 978-850-0021-21-3)

Edição brasileira 2: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5925-42-5)

Título português: Uma longa caminhada: Memórias de um menino soldado

Edição portuguesa: Casa das Letras (ISBN 978-972-4617-27-5)

Número de páginas: 224 (Ediouro), 256 (Companhia das Letras), 284 (edição portuguesa)

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