O dia seguinte, de Rhidian Brook

Brook_Aftermath

Uma viagem de 12 horas, seguida por 8 de espera num aeroporto nada convidativo, e de mais 2 e meia até chegar em casa – eis o pesadelo de qualquer mortal. A menos que se tenha uma excelente companhia. A minha ontem foi o romance O dia seguinte, do escritor galês Rhidian Brook.

Vinha adiando a leitura deste livro porque não sou nem nunca fui uma grande apreciadora de romances históricos, sobretudo quando passados durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, fui agradavelmente surpreendida pelo fato de que O dia seguinte não é mais um livro sobre este tema já batido, mas sim sobre o pós-guerra, ou a tentativa de restabelecimento da Alemanha um ano após a derrocada de Hitler. Para escreve-lo, Brook inspirou-se no próprio avô, que, chamado para ocupar um cargo militar em Hamburgo em 1946, recusou-se a expulsar da mansão a si atribuída a família que lá vivia, optando por coabitar com os antigos inimigos.

Eis a ‘aberração’ – do ponto de vista britânico na época – cometida por Lewis, um dos protagonistas da trama, responsável por trazer a democracia e garantir o processo desnazificação no norte da Alemanha. Recém-chegado a uma Hamburgo em ruínas, o antigo herói de guerra tem a difícil função de reconstruir o país que ajudou a aniquilar, mas comporta-se de maneira oposta a seus conterrâneos: Lewis demonstra compaixão pelos sobreviventes alemães. Atitude, aliás, oposta à de sua esposa Rachael, cega de ódio pelo povo que matou seu filho mais velho, e incomodada pela suntuosidade da vila à beira do Elba que a família passa a habitar. A convivência forçada com os antigos proprietários da mansão, um atraente arquiteto alemão e sua revoltada filha adolescente, serve no entanto para apaziguar a fria senhora e devolver todos à vida.

A trama, que se desenrola de forma novelesca, apresenta a história sob o ponto de vista de várias personagens, entre principais e secundárias, oferecendo-nos um panorama do que terá sido viver em meio aos escombros de uma Alemanha vencida. Entre órfãos da guerra (Trümmerkinder) e nazistas camuflados, todos exaustos e famintos, a aversão aos novos colonizadores faz gerar a rebelião e a nostalgia pelo retorno do Führer, sobretudo à medida em que forasteiros ideologicamente programados desprezam os vencidos e os tratam como ratos.

É certo de que Rhidian Brook não escreveu nenhum futuro clássico da literatura ocidental. Muito pelo contrário: o livro é cheio de reviravoltas rocambolescas, personagens pouco profundas, e situações tão previsíveis que quase se tornam inesperadas. É um livro, enfim, descartável, desses feitos para um leitor mediano. No entanto, trata-se ainda assim de um romance bem escrito, cuja trama é viciante, e que nos permite repensar a História. Para mim, conhecedora (e crítica) que sou da cultura alemã, sobreveio a admiração, ao lembrar-me de que o país que é hoje um dos carros-fortes da economia global, e um dos maiores defensores da União Europeia, foi há tão pouco tempo o inimigo público número um, que estrangeiros de todo o mundo aprendiam na escola a temer e a desprezar. Admiração por este país que, citando, “não [estava] acostumado a debater”, mas que não apenas “encontrou sua voz”, como tornou-se um dos maiores oradores de uma Europa pacífica e sem fronteiras.

Tudo isso são divagações minhas, e não chega a ser abordado no livro de Brook. No entanto, costumo dizer que um livro que faz viajar para além dos seus limites, que faz pensar e revisitar paradigmas, que abre pontes para analogias, deve ser sempre vivamente recomendado.

Nada como um bom best-seller para fazer uma viagem longa e aborrecida tornar-se numa experiência memorável!

 

Título original: The Aftermath

País: País de Gales

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2013

Título brasileiro: O dia seguinte

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN: 978-858-0575-92-7)

Título português: O despertar do mundo

Edição portuguesa: Asa (ISBN: 978-989-2325-37-8)

Número de páginas: 272 (edição brasileira), 328 (edição portuguesa)

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