Contos de N’nori, de Carlos-Edmilson Marques Vieira

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Em plena semana em que as redes sociais encheram-se de comentários polêmicos acerca da proposta do Governo brasileiro de excluir os grandes clássicos da literatura portuguesa do curriculum escolar obrigatório, decidi celebrar a lusofonia. Para isso, elegi um livro obscuro e singelo, tal como o seu país de origem: Contos de N’nori, do guineense Carlos-Edmilson Marques Vieira.

Para começar, é preciso admitir que escrever sobre Contos de N’nori não é uma tarefa fácil. Afinal, seu autor não é aquilo que tradicionalmente chamamos de ‘escritor’, mas sim um amador apaixonado por literatura que, em grande parte, autofinancia a edição de seus livros. Fora das grandes editoras, fora das grandes livrarias, longe da consagração das mídias, mas no entanto muito empenhado em fazer passar a sua mensagem.

Lançado em 2000 numa tiragem única de apenas 500 exemplares pela pequena associação Uneas (União Nacional de Escritores e Artistas São-tomenses), Contos de N’nori consiste num pequeno apanhado de uma centena de páginas contemplando oito histórias. Tanto no que diz respeito à temática quanto à qualidade literária, trata-se de contos bastante heterogêneos, que têm como foco a vida e a realidade de uma Guiné-Bissau herdeira do pós-colonialismo. Alguns deles, como “O homem da flauta”, a história de um mendigo anônimo e cordial rejeitado pela sociedade, serão capazes, em sua simplicidade, de comover o mais crítico dos leitores. Outros, como a micronarrativa erótica “Conto vivido”, mais se assemelham a um exercício literário de língua portuguesa de um aluno do Ensino Médio. Na grande maioria deles, no entanto, notamos uma forte verve política, bem como o desejo de tematizar os deslizes históricos e as consequências nefastas da colonização recente.

Não podemos tapar o sol com a peneira: o livro carece de edição e revisão ortográfica, contendo diversos erros de português, alguns deles tão simples como a grafia de uma mesma palavra, numa mesma página, de duas ou três maneiras diferentes. Aliás, por que tantos erros? Talvez porque o português nem seja, de fato, a língua materna do autor, mas sim o crioulo, e porque ele, ao decidir escrever, tenha sido confrontado com o grande dilema dos autores africanos – expressar-se numa língua materna de restritíssimo público leitor ou na língua do dominado, dirigindo seus escritos àquele que condena? No entanto, um livro como o de Carlos-Edmilson não pode nem deve ser julgado pelos mesmos critérios e parâmetros que a chamada “alta literatura”.

Em vez de nos demorarmos na espinhosa questão do que é literatura, talvez seja mais judicioso atentarmos à importância de livros como este, que fazem pensar em gente tão talentosa e fora do cânone como a nossa Carolina Maria de Jesus. Afinal, independente de seus desvios da estética convencional, os Contos dão voz a uma famigerada minoria cultural, a qual permaneceria calada não fosse o empenho do autor em se fazer ouvir. Mais triste ainda é pensarmos que Carlos-Edimilson nem sequer é tão “minoria” assim: trata-se na verdade de um diplomata, graduado duas vezes em Paris, cujo primeiro livro – uma coletânea de contos – foi publicada na França. Todas essas informações biográficas encontram-se orgulhosamente estampadas na contracapa do livro, como se com elas seu autor pretendesse autoproclamar o seu direito de pertencer ao seleto grupo dos Autores com ‘a’ maiúsculo. Imaginem, neste caso, quantas verdadeiras Carolinas não haveríamos de encontrar nos confins da Guiné-Bissau se simplesmente saíssemos procurando?

Embora se trate de um livrinho do qual a maioria de nós sequer ouviria falar não fosse a minha pesquisa incessante por autores obscuros, Contos de N’nori é, graças à internet, até bastante fácil de se encontrar, e pode ser descarregado gratuitamente no site do Instituto Camões. E é de se aproveitar! Afinal, independente do que decidir o Ministério da Educação, a nossa pátria sempre continuará sendo a nossa língua enquanto a ela formos fieis.

 

Título original: Contos de N’nori

País: Guiné-Bissau

Idioma original: português

Ano de publicação: 2000

Edição portuguesa: Uneas (EAN 220-001-7206-41-1)

Número de páginas: 94

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