Monasterio, de Eduardo Halfon

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Desde que cheguei à Europa, sempre me incomodou uma pergunta inevitável: qual a sua origem? Pela perspectiva brasileira, a origem de uma pessoa está relacionada ao país onde ela nasceu – afinal, seria absurdo indagar sobre as raízes familiares de alguém num país tão miscigenado, exceto talvez durante as aulas de geografia. A maioria dos brasileiros nem o saberia dizer. Mais tarde, no entanto, descobri que a resposta a esta pergunta não é tão preto no branco assim. Como alguém nascido na Alemanha, com pais e avós nascidos na Alemanha, mas que até hoje não obteve direito à nacionalidade alemã poderia considerar-se alemão? E o que falar da superioridade arrogante de alguém nascido num país “marginal”, criado num gueto cultural do país de seus pais, que nunca fez sequer o esforço de aprender a língua da terra onde veio ao mundo?

Ainda mais complicada é a situação de um guatemalteca judeu, ¾ árabe e ¼ polaco, que não fala uma palavra de polonês, árabe ou hebraico, mas que é tão fisicamente distinto dos homens de sua terra natal que é frequentemente tratado como “gringo”. Eis o dilema que descreve Eduardo Halfon em sua novela Monasterio.

O livro, que poderíamos chamar de autobiografia ficcional, começa com a chegada do protagonista e seu irmão no aeroporto de Ben Gurion, em Tel Aviv, onde pretendem participar do casamento da irmã caçula, reconvertida em judia ortodoxa, com um judeu americano ultraconservador. Autodeclarado ateu, hispânico e guatemalteca, Eduardo se sente incomodado com a imposição social que o obriga a se sentir judeu, e tenta romper com um passado que não lhe pertence. Ao mesmo tempo, no entanto, percebe que também não se encaixa na sociedade guatemalteca, e acaba se sentindo como uma espécie de híbrido indefinido, eternamente fadado ao meio do caminho.

Em uma série de sequências curtas, que não obedecem forçosamente a ordem cronológica, Halfon faz-nos viajar por três continentes, enquanto percorre as ruas de Tel Aviv, Nova Iorque, Antigua e Łódź, e até mesmo a fronteira entre a Guatemala e o Belize, numa série de situações interligadas pelo tema do sentimento de identidade. Cada uma dessas narrativas curtas e interessantes poderia, por si só, ter dado origem a um romance completo. Assim, é com um certo pesar que o leitor se despede de cada capítulo, embora reconheça que a riqueza deste livro inovador reside justamente em seu caráter fragmentário. O que melhor que o patchwork para definir uma história de vida tão particular?

Aclamado pela crítica internacional, Eduardo Halfon destaca-se hoje em dia como um dos mais talentosos escritores latino-americanos da chamada “nova geração” – a qual, entretanto, já vai deixando de ser assim tão nova. Monasterio faz certamente justiça à enxurrada de críticas positivas que o autor tem recebido, mas ainda não foi traduzido para o português. Quem não quiser esperar para descobrir o seu trabalho, pode começar por outros livros já traduzidos, como O anjo literário e O boxeador polaco. Afinal, a julgar pela primeira impressão, optar por este autor é uma escolha sempre certa.

 

Título original: Monasterio

País: Guatemala

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição em espanhol: Libros del Asteroide (978-841-5625-77-3)

Número de páginas: 128 (edição em espanhol)

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