Vozes de Chernobyl, de Svetlana Aleksievitch

Alexievitch_Tchernobyl

No dia 26 de abril de 1986, uma explosão provocada por um teste malsucedido num reator da usina nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética, entraria para a história. Cerca de 10 anos após a tragédia, a jornalista bielorrussa Svetlana Aleksievitch iniciou uma série de cerca de 500 entrevistas às vítimas, as quais dariam lugar ao impressionante Vozes de Chernobyl: Crônica do Futuro.

O livro consiste numa coletânea de relatos em primeira pessoa narrados por sobreviventes da catástrofe, bem como por seus parentes, e revelam um lado ainda mais sombrio – e até então desconhecido – da maior catástrofe nuclear de todos os tempos: a ignorância da população local perante à tragédia. Para dar voz às vítimas silenciosas de Chernobyl, Svetlana recorre à técnica do recorte, recurso já empregado em seus trabalhos anteriores, de modo a que o livro seja composto como uma espécie de patchwork, permitindo o entrecruzamento de vozes em uma pluriperspectividade dialética.

Em vez de se ater aos grandes fatos, já demasiadamente esmiuçados, Svetlana preocupa-se com o aspecto humano do acidente, privilegiando a micro-história. Desta forma, tomamos conhecimento da catástrofe através do relato daqueles que a viveram pessoalmente, desde moradores de Pripiat, soldados, liquidadores (pessoas recrutadas pelo governo soviético para dar fim aos resquícios radioativos), e caçadores encarregados de exterminar os animais domésticos e selvagem, até físicos e diretores dos principais centros de pesquisas atômicas da URSS. O resultado é o registro chocante de uma sequência dantesca de erros que facilmente poderiam ter sido minimizados, não fossem os interesses políticos terem decidido ocultar covardemente as dimensões da situação. A desinformação gritante sobre as possíveis consequências de uma contaminação radioativa, aliada ao coletivismo e ao senso de dever cívico dos povos socialistas, são ainda hoje responsáveis por um prejuízo humano de dimensões incalculáveis, cujas consequências ainda poderão ser observadas por centenas de gerações.

Quanto ao aspecto literário do texto, é preciso estar atento ao fato de que a leitura nem sempre será fácil. Tal dificuldade não se deve apenas ao tema obviamente chocante, mas sobretudo ao seu caráter repetitivo – essencial do ponto de vista histórico e antropológico, mas cansativo do ponto de vista literário. Enquanto a semelhança de muitos dos relatos os valida como testemunho documental, ela também obriga o leitor a uma grande disciplina. Não se trata, enfim, de um livro facilmente digerível, nem muito menos de um registro sensacionalista: eis, do ponto de vista narrativo, o principal mérito da autora.

Chega a ser impressionante que a obra de Svetlana, laureada com o Prêmio Nobel da Literatura em 2015, ainda seja tão desconhecida no mundo lusófono. Assim, o leitor que se interessar por Vozes de Chernobyl terá que se contentar, por enquanto, com uma edição em língua estrangeira (ver algumas sugestões abaixo). Por outro lado, a boa notícia é que O fim do homem soviético, considerado sua obra-prima, já ganhou uma edição portuguesa, e que outras traduções já se encontram a caminho.

 

Título original: Чернобыльская молитва. Хроника будущего

País: Bielorrússia

Idioma original: russo

Ano de publicação: 1997

Edição em português: não encontrada

Edição inglesa: Picador (ISBN 978-031-2425-84-5)

Edição espanhola: Debolsillo (ISBN 978-849-0624-40-1)

Edição francesa: J’ai lu (ISBN 978-229-0343-60-9)

Número de páginas: 256 (edição inglesa), 408 (edição espanhola), 250 (edição francesa)

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