A irmã de Freud, de Goce Smilevski

Smilevski_Freud

Viena, 1938. Quatro velhas judias imploram ao irmão que as inclua em uma lista para obter um visto para fora de uma Áustria ocupada pelos nazistas. Impassível às suas súplicas, o homem segue caminho para a Inglaterra, onde morrerá pouco depois, deixando para trás as quatro mulheres, que perecerão todas num campo de concentração. O que choca o leitor não é apenas sua frieza, nem o fato de que ele poderia facilmente tê-las salvo, já que conseguiu fazer o mesmo com seu médico, suas criadas, e até mesmo seu adorado cachorro. Mais do que isso, o que incomoda é saber que esse Schindler ao contrário é nada menos que o aclamado psicanalista Sigmund Freud.

Os apologistas de Freud ficarão provavelmente incomodados com sua imagem enigmática e fria tecida pelo escritor macedônio Goce Smilevski. Aqueles que, como eu, consideram o “pai da psicanálise” um enorme charlatão e misógino chauvinista até se divertirão com a ideia do autor. Na verdade, A irmã de Freud será um prato cheio para todos os fãs da belle époque vienense, que encontrarão nele um Gustav Klimt ninfomaníaco e sua irmã sufragista, Martha Freud e sua irmã Minna Bernays, e até mesmo uma envelhecida Ottla Kafka – a irmã preferida do famoso escritor tcheco – pronta a se sacrificar por um grupo de órfãos desconhecidos. Pois o livro de Smilevski é mesmo isso: um livro de irmãs sofredoras, de mulheres fortes e frágeis vivendo à sombra de seus adorados irmãos brilhantes numa sociedade paternalista na qual não lhes era dada a chance de desenvolverem seu potencial.

Se este é o lado positivo da história, é preciso dizer que o negativo também faz pensar no médico vienense que A irmã de Freud tenta demonizar. Afinal, chega a ser uma ironia que um livro dedicado ao maior estudioso das camadas profundas da mente humana tenha uma profundidade psicológica na construção das personagens beirando o zero. Adolfina, a protagonista-narradora, narra-nos sua vida atendo-se mais aos fatos que a suas causas e consequências, e o faz numa tal velocidade que temos a impressão de que mal chegamos a conhece-la de fato. Isso se aplica, pelo menos, até o seu ingresso num hospital psiquiátrico, a partir do que as páginas se arrastam em descrições longas e fastidiosas, citações de famosos sobre doenças mentais, num verdadeiro (e desnecessário) ensaio sobre a loucura. As relações familiares, os vínculos afetivos entre Adolfina e as outras irmãs, os motivos pelos quais uma delas ficou cega, e até mesmo a razão pela qual Sigmund teria decidido “abandonar” a própria família num ninho de antissemitas – tudo isso, ao contrário, permanece inexplicado. Falta o elo que interliga os elementos da trama, falta o fio de Ariadne que nos permite compreender a chocante primeira cena, que por isso mesmo acaba se tornando desnecessária, polêmica, sensacionalista. Fórmula barata para se fazer best sellers, para se vender milhões de cópias no mundo, mas de maneira alguma fórmula para se escrever um livro de qualidade.

Tudo isso, na verdade, é mesmo uma grande pena, já que o material histórico era fascinante, o ponto de partida excelente, e a qualidade narrativa também não era das piores. Uma excelente ideia, enfim, nas mãos de um escritor sem o talento necessário para a desenvolver. Pérolas jogadas aos porcos.

 

Título original: Sestrata na Sigmund Frojd

País: Macedônia

Idioma original: macedônio

Ano de publicação: 2007

Edição brasileira: Bertrand Brasil (ISBN978-852-8617-28-3)

Edição portuguesa: Alfaguara (ISBN 978-989-6721-65-7)

Número de páginas: 336 (edição brasileira), 332 (edição portuguesa)

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