O bônus da quarta: Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato

Ruffato_Cavalos

Para marcar a primeira quarta-feira do ano novo, e para assinalar as minhas boas intenções, vou tentar atualizar a nossa sessão especial. Embora não se trate forçosamente de um livro desconhecido, sempre é bom recordar aquele que se tornou um verdadeiro clássico da literatura brasileira do princípio do século XXI: Eles eram muito cavalos, do escritor mineiro Luiz Ruffato.

Publicado inicialmente em 2001, o livro é composto por uma série de micronarrativas, todas elas alinhadas de forma caleidoscópica, de modo a apresentar um retrato multifacetado da cidade de São Paulo. Além da unidade de espaço, o único elo entre elas reside no fato de que se passam praticamente em simultâneo, num único dia: 9 de maio de 2000. Desafiando os parâmetros da prosa tradicional, Ruffato usa e abusa das formas convencionais, como a narrativa linear em primeira e em terceira pessoa, a epístola, o diálogo e o monólogo interior, mas também explora o valor literário de uma série de textos inusitados. São eles o cardápio de um restaurante, a lista de livros que compõem uma biblioteca, folhinhas de orações, previsões de astrologia, anúncios de serviços sexuais, entre outros. O resultado é um patchwork de textos dissonantes tanto no que diz respeito à forma quanto ao conteúdo, mas que refletem a singular pluralidade de sua verdadeira protagonista: a maior cidade da América do Sul.

Durante a leitura, com a qual leitor nenhum poderá se aborrecer, é interessante refletir sobre os motivos que fazem com que alguns dos textos acabem por se tornar literatura. Afinal de contas, é o olhar poético do autor, e não o seu valor estético individual, bem como o fato de terem sido agrupados num mesmo compêndio, o que lhes dá força e vitalidade. Estão presentes ainda em Eles eram muitos cavalos alguns dos temas recorrentes da literatura brasileira na virada do novo milênio – tais como o stress do cotidiano, a onipresente violência urbana e a solidão dos indivíduos na cidade grande –, bem como alguns motivos eternos – como  a (des)esperança no futuro, a luta de classes, e assim por diante.

Uma vez que encontrar um gênero literário único para classificar um livro tão complexo seria uma tarefa impossível, preferimos ficar com a definição do autor, e o chamar “instalação literária”. Em todo caso, trata-se de um livro não apenas extremamente agradável, rápido e fácil de ler, mas também de um contributo essencial para o “renascimento” da literatura de expressão lusófona na aurora do século XXI. Simplesmente, um livro que obrigatório a todos aqueles que querem tentar entender o mundo em que vivemos.

 

Título original: Eles eram muitos cavalos

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2001

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-850-1079-61-9)

Edição portuguesa: Quadrante (ISBN 978-972-8962-02-9)

Número de páginas: 160 (edição brasileira)

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