O escudo vermelho, de Claudine Jacques

Jacques_Bouclier

Chegou 2016! E para nós, o ano começa com um livro cuja leitura do começo ao fim poderia, por si só, ser considerada um motivo de orgulho. Em primeiro lugar, pelo simples fato de o ter encontrado. Afinal de contas, quantos de vocês já leram um livro da Nova Caledônia? É verdade que a Caledônia não é propriamente um país, mas sim um território oceânico mais ou menos independente composto de pequenas ilhas sob efígie francesa. Não é um país, mas é culturalmente tão distinta da sua metrópole que seria quase um crime ignorar a sua literatura. Nem que seja pelo mérito de ela simplesmente existir.

O escudo vermelho – tradução livre do título original – é um livro relativamente conhecido (atenção, aqui, para a palavra “relativamente”) lançado em 2014. O romance, vencedor do obscuro prêmio literário Färä Pecii, é anunciado por seus editores como um “thriller oceânico”. A trama, narrada a partir do ponto de vista de várias personagens diferentes, trata da história de um velho milionário, Jif Bigfala, que, obcecado pela arte dos povos primitivos, contrata um jovem arqueólogo para constituir o seu 84º catálogo. A fim de obter mais peças para sua inigualável coleção, o velho, que a princípio dá a impressão de ser um excêntrico inofensivo, tem a seu dispor um bando de mercenários, responsáveis por adquirir novos objetos a qualquer preço. Aos poucos, sua máscara de inocência cai por terra, e nos apercebemos de que as lendas que ele tanto lê podem conter um teor de verdade, e de que os estranhos pratos que consome podem ser feitos de carne humana.

Uma ilha paradisíaca repleta de canibais, um grupo de piratas consumidos pela ganância, um anti-herói megalomaníaco, virgens sacrificadas em rituais de magia negra… ou seja, uma série de clichês tão grande que até poderia ter sido suficiente para tornar o romance divertido. Mas a prosa de O escudo vermelho é tão medíocre, e seus diálogos tão pouco cativantes, que chega a ser difícil encontrar um motivo para passarmos à página seguinte. Como se não bastasse, suas personagens são tão pouco carismáticas que até mesmo o leitor vegetariano chegará a desejar que elas acabem virando ragôut – por exemplo, o sujeito que pratica cunilíngua na adolescente que havia anteriormente estuprado, acreditando oferecer-lhe com isso uma espécie de compensação. Ou talvez, quem sabe, seja a própria autora quem mereça parar na panela, por escrever frases do tipo “ela tinha só quatorze anos, mas os seios eram os de uma verdadeira mulher.” Os pedófilos que se esbaldem!

Nascida em França e criada na Caledônia, a escritora de longa carreira Claudine Jacques exemplifica claramente o ditado popular “em terra de cego quem tem um olho é rei”: numa ilha perdida no meio do nada, até a mais medíocre das amadoras acaba se tornando um grande sucesso literário local. Mas talvez não devêssemos ser tão duros com ela. Afinal, viver num lugar que é o paraíso sobre a terra e ainda assim encontrar motivação para se sentar em frente ao computador e escrever quase trezentas páginas é, por si só, sinal de uma força de vontade admirável.

 

Título original: Le bouclier rouge

País: Nova Caledônia

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição em francês: Noir au blanc (ISBN: 979-109-0635-23-4)

Número de páginas: 294 (edição em francês)

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