Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera

Galera_Barba

Para abrir com chave de ouro um mês cujas temperaturas assustam tanto brasileiros (pelo calor excessivo), quanto portugueses (devido às chuvas torrenciais), nada melhor que a companhia de um bom livro. E eis a minha sugestão brasileiríssima desta quarta: Barba ensopada de sangue, aclamado romance do jovem escritor Daniel Galera, um livro que contem tudo o que é necessário para um bom começo de mês.

O livro conta a história de um nadador profissional, cujo nome nunca chegamos a conhecer, que decide abandonar a vida citadina na capital do Rio Grande do Sul e instalar-se em Garopaba, um vilarejo de pescadores no litoral de Santa Catarina, onde, décadas antes, seu avô teria sido assassinado. Conforme sugere uma velha fotografia, o neto seria muito parecido com o antepassado que nunca conhecera, sendo este talvez o motivo para sua curiosidade aguçada. O exílio voluntário, decorrente de uma decepção amorosa, segue-se ao suicídio do pai, que pouco antes lhe confiara a cachorra Beta, fazendo-lhe jurar que a levaria para ser abatida. Incapaz de cumprir a promessa, embora consumido pela culpa por se negar ao último desejo de um homem, Beta acaba por se tornar sua única companheira numa terra inóspita, cujos ares de paraíso turístico desaparecem por completo ao fim de cada temporada. Visto pelos habitantes do local como uma espécie de ameaça, sobretudo após começar a fazer perguntas incômodas sobre um passado do qual ninguém parece estar disposto a falar, o nadador solitário observa calado a animosidade crescente em relação à sua pessoa. No entanto, longe de o fazer abandonar sua busca, a atmosfera de ameaça só serve a aumentar seu inexplicável desejo de desenterrar os supostos mortos de Garopaba. Até este ponto, talvez até estivéssemos diante de uma história comum, não fosse o protagonista portador de uma condição neurológica beirando o inimaginável, que o condena a relacionar-se com outros seres humanos de maneira pelo menos peculiar.

Indicado para o Prêmio Portugal Telecom 2013, o livro alcançou em seguida as prateleiras ultramarinas, motivo pelo qual também os leitores lusos podem se alegrar. Afinal, trata-se de um romance dificilmente classificável, mas cuja força reside sobretudo no enorme potencial de Galera enquanto narrador, que constrói um texto ao mesmo tempo plácido e cheio de tensão. Mesmo se, ao nos aproximarmos do final, muitas lacunas permanecem desnecessariamente sem solução, a grande maioria dos elementos acaba por convergir num desfecho predestinado, dando mostras de grande coesão textual. Por fim, ganhamos a impressão de que o círculo se fecha de forma tão bem-sucedida, que o desejo de reler desde o princípio acaba se tornando inevitável.

Mesmo não sendo um livro perfeito, este jovem escritor com muito chão pela frente oferece-nos a literatura brasileira no melhor da sua forma: crítica, cativante, envolvente. Pretensiosa, certamente, mas no melhor sentido do termo.

Título original: Barba ensopada de sangue

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5921-87-8)

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN 978-989-7221-39-2)

Número de páginas: 424 (edição brasileira), 392 (edição portuguesa)

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