Deus foi almoçar, de Ferréz

Ferrez_Deus

Dando prosseguimento às quartas-feiras especiais, e desde já pedindo desculpas pela ausência da semana passada, a resenha de hoje retoma o nosso percurso pela literatura brasileira com um escritor que definitivamente já faz parte do nosso cenário literário: o paulista Reginaldo Ferreira da Silva, mais conhecido como Ferréz.

Quem pensa em Ferréz, pensa inevitavelmente em Capão Pecado ou Manual Prático do Ódio, nos quais o autor explorava a temática da inevitabilidade da violência, bem como a criminalidade como eventual possibilidade de ascensão social. Mas pensar em Ferréz significa igualmente deixar-se transportar pelas vielas e quebradas da periferia de São Paulo, com suas paredes grafitadas e seus eternos muros de concreto. Em Deus foi almoçar, encontramos o mesmo cenário, porém habitado por uma outra espécie de miséria. Calixto, seu protagonista, é o protótipo do homem comum, desses com carteira assinada, livro de pontos e marmita feita pela esposa. Seu mundo começa a ruir no momento em que se encontra sozinho: abandonado pela esposa, suas ambições pequeno-burguesas logo se despedaçam. Vítima de uma depressão, sua sede de afeto só é aliviada por encontros esporádicos com criaturas igualmente desesperadas: uma ensebada prostituta, uma vizinha de meia-idade que fala com seus cachorros, uma antiga colega de escola manca, ou um amigo evasivo. Incapaz de interagir com o mundo ao seu redor, Calixto entrega-se cada vez mais às lembranças de um passado cujo idílio talvez nem sequer tenha existido, enquanto seus devaneios são acompanhados pelo barulho incessante de uma televisão eternamente ligada. Haverá alguém do outro lado da tela, ou estará Deus simplesmente em horário de almoço?

Deus foi almoçar distingue-se muito dos outros livros até então publicados por Ferréz. Do ponto de vista geográfico, encontramo-nos como sempre na periferia paulista, embora os marginais e as criaturas da noite não estejam mais em primeiro plano. Embora o confronto quotidiano do homem moderno com a violência urbana sempre volte à tona – seja por meio de garotas violadas, seja no envenenamento intencional de animais domésticos, ou mesmo em acidentes de trânsito ou brigas de bar –, o foco encontra-se sobretudo numa outra espécie de violência: a incomensurável brutalidade de se sentir sozinho no mundo. Do ponto de vista narrativo, pode-se notar uma maior maturidade do autor, que desenvolve uma prosa mais seca, menos vertiginosa, voltada sobretudo para o interior das personagens. Por vezes, o livro intercala narrativa tradicional e fluxo de pensamento, sendo que a ponte entre um e outro pode até mesmo se encontrar no interior de uma única frase. O resultado é um labirinto diegético, no qual temos os sentimento de imergir a medida em que o livro avança, permitindo uma relação de total empatia com um protagonista cujo destino poderia ser o de cada um de nós.

Embora não venha forçosamente a ser o Ferrés favorito da maioria, trata-se de um livro a não deixar de ler: desses que de forma alguma nos levantam a moral, mas cujo niilismo e desespero existencialista são a cara da sociedade em que vivemos.

Título original: Deus foi almoçar

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Planeta do Brasil (ISBN 978-857-6658-89-4)

Número de páginas: 239

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