O bônus da quarta: O invasor, de Marçal Aquino

Aquino_Invasor

Continuando a cruzada pela literatura brasileira contemporânea que iniciamos há duas semanas, revisitamos hoje o trabalho de Marçal Aquino, que tem se destacado no cenário literário brasileiro como um dos mais fieis sucessores do chamado “realismo feroz”. O termo, criado nos anos 1970 pelo crítico literário António Cândido para classificar a obra de Rubem Fonseca, pode (e deve) ser considerado anacrônico. Afinal, estamos a falar de uma literatura jovem, que busca na inovação da forma e da linguagem novos caminhos para tematizar a “violência endêmica” de que falava Sheherazade. Verdade é, no entanto, que na ausência de melhor definição, vamos ficando com esta.

Lançado em 2002 – e republicado recentemente pela Companhia das Letras –, O invasor marca o início da carreira de Aquino como autor de ficção adulta, e foi escrito paralelamente à criação do roteiro para um filme homônimo, lançado no mesmo ano. A trama, que pode ser resumida em poucas linhas, poderia ter sido extraída da seção de atualidades policiais de qualquer jornal brasileiro: dois empresários bem-estabelecidos contratam um matador de aluguel a fim de se livrarem do sócio majoritário da empresa que possuem. O crime, motivado por divergências, digamos, “ideológicas” – o morto não estava de acordo que eles fechassem um contrato milionário, envolvendo lavagem de dinheiro, com representantes do governo –, tem consequências inesperadas quando o matador decide tornar-se “amigo” dos mandantes, e passa a namorar a filha do homem assassinado.

A partir deste breve resumo, temos já uma clara noção do tipo de leitura que nos espera. Trata-se uma narrativa frenética, por vezes mesmo claustrofóbica, marcada pelo ritmo acelerado das películas policiais, mas que no entanto carece do elemento preferido dos filmes hollywoodianos: não existem mocinhos. Quando muito, podemos falar em anti-heróis, sobretudo ao pensarmos no matador Anísio, cujas (más) intenções podem ser compreendidas como uma tentativa de ascensão social levada ao extremo. O livro, aliás, põe em causa até mesmo o próprio conceito de protagonista, já que os protagonistas iniciais, Ivan e Gilberto, vão aos poucos perdendo espaço para o assassino de aluguel, que assume no final o estatuto de personagem principal.

Classificar O matador como um mero romance policial – aos moldes, por exemplo, de uma Patrícia Melo –, seria, no entanto, limitar o trabalho de Aquino a apenas uma de suas muitas facetas. Afinal, as pouco mais de cem páginas nas quais o livro se compõe abarcam não apenas uma história empolgante, mas também uma miniatura da própria realidade brasileira. A crítica político-social torna-se latente com o retrato de uma sociedade na qual os bandidos não são feios e maus, mas sim pessoas comuns, do tipo que chamaríamos mesmo “homens de bem”, capazes no entanto de chegar à barbárie devido à ganância. Uma sociedade na qual se mata em nome do poder, e o poder é caracterizado pela palavra-chave do nosso tempo: a corrupção. Em nome do dinheiro, abdica-se de uma vida inteira de cidadãos-modelo, e entra-se no círculo vicioso de se cometer um crime para esconder o anterior. Parafraseando Nelson Rodrigues, trata-se de um pequeno retrato da vida como ela é.

Título original: O invasor

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2002

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5918-04-5)

Número de páginas: 128 (edição brasileira)

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