O bônus da quarta: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino

Aquino_Lábios

Dando continuidade ao projeto paralelo iniciado há uma semana, o “bônus da quarta” de hoje tem como foco um dos mais talentosos discípulos de Rubem Fonseca: o escritor e roteirista Marçal Aquino.

Pessoalmente, ler Aquino aos trinta e poucos anos é como abrir uma porta para um passado querido. Para quem não se lembra, o autor iniciou a sua carreira nos anos 1990 com alguns clássicos da saudosa Série Vagalume, como O jogo do camaleão e A turma da rua quinze. Para aqueles que descobriram o prazer pela leitura por meio de seus livros, reencontrá-lo, duas décadas e meia mais tarde, em uma prosa madura e ainda cheia de mistério é como rever um velho amigo depois de anos de afastamento.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é talvez, seu livro mais conhecido, sobretudo graças à adaptação cinematográfica de grande sucesso (ver trailer aqui). O livro narra a história de Cauby, um fotógrafo de longa carreira que, no entanto, já viveu dias melhores. Graças a uma bolsa para a realização de um livro-documentário sobre as damas do garimpo, Cauby abandona a capital paulista para se embrenhar no interior do Pará, e acaba por se perder naquela terra de ninguém. Afora eventuais trabalhos para a perícia forense ou sessões fotográficas eróticas para as prostitutas locais, entretém-se em conversas com um jornalista pseudogótico à beira da morte, ou com um chinês declaradamente pedófilo, seus únicos amigos, até que se apaixona pela misteriosa Lavínia, ex-prostituta e esposa de um pastor evangélico. Lavínia, que também é Shirley, são na verdade muitas mulheres, as quais parecem se unir para levar o protagonista à beira da loucura.

Narrado em primeira pessoa, o livro desenvolve-se a partir da perspectiva do amante desafortunado, que mescla o presente a um passado não muito distante ao tentar reviver sua curta e atribulada história de amor. Ao fazê-lo, serve-se de uma linguagem forte, vulgar, pictográfica e não raras vezes escatológica, cuja racionalidade é acrescida pelas frequentes citações de um suposto tratado filosófico sobre “as fezes da alma”, escrito pelo fictício Benjamim Schianberger. Como resultado, temos uma história de amor sem máscaras nem clichês, que subverte a própria lógica da narrativa amorosa, desafiando seus limites de maneira quase naturalista, e mostrando que a beleza mais sincera só pode mesmo descender do Feio absoluto.

Seria injusto, no entanto, concentrarmos nosso olhar apenas na narrativa amorosa, já que o livro possui tantas outras camadas para além da superfície. Em alguns momentos, temos mesmo a impressão de que o casal protagonista apenas serve de pretexto para explorar temas de relevância universal, como os vários níveis de violência que regem os recôncavos do Brasil, alheios ao pacto social da chamada pós-modernidade, e à espera do menor movimento para explodir numa catarse coletiva. Trata-se de um universo primitivo e violento, governado pelo instinto e por antigos códigos de honra, e que se caracteriza por privilegiar todas as formas de dominação ao mais fraco, das mais óbvias às mais sutis. Esse mundo, habitado por matadores de aluguel e excluídos de toda espécie, assemelha-se fortemente aos sertões de que nos falaram alguns dos nossos maiores escritores do século passado. Ao abandonar o seu terreno familiar, ou seja, as grandes cidades, e voltar-se para o interior, Aquino dá nova vida a essa literatura.

Se todas as histórias de amor fossem tão infelizes, cruas e honestas como aquela de Cauby e Lavínia, o gênero certamente faria parte dos meus preferidos.

Título original: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2005

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5907-36-0)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 229 (edição brasileira)

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8 thoughts on “O bônus da quarta: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino

  1. Ok, estou arrependida. Eu ia começar a ler esse livro, mas deixei ele de lado e peguei outro. Mas agora voltou muito a vontade. Você me convenceu em “autor de A turma da rua 15”.
    Esse parece ser um livro um tanto pesado, mas estou muito curiosa. Gosto dessas histórias mais cruas e diretas, é um choque de realidade as vezes, mas é sempre uma experiência muito enriquecedora.

    Beijos

    • Olá e obrigada pelo comentário 🙂 Sou uma fã declarada de Marçal Aquino, e também dessa tendência crua e direta da literatura brasileira. As próximas resenhas que escreverei às quartas-feiras estão todas relacionadas a essa tendência, pois se trata de livros que eu li para escrever um artigo sobre a apologia à violência. Quarta-feira, por exemplo, tem mais Aquino! 😉 Adoraria saber a sua opinião quando tiver lido.
      Beijos!
      PS: Vi o filme este fds e não gostei…

      • Vou seguir seus posta de quarta! Me interesso muito por esse tipo de literatura. E quando eu ler o livro volto aqui pra gente poder conversar um pouco 😁

  2. Esse livro é maravilhoso! Aqueles flashbacks na narrativa são incríveis mesmo…Comprei por acaso, vi na livraria, já tinha assistido o filme e adorei o livro. Gostei pelo fato de fugir do clichê, é um romance com suspense, imprevisível. =]

    • Concordo plenamente! Sou da opinião que a literatura brasileira está vivendo seu ponto alto neste momento. Vou publicando algumas resenhas às quartas-feiras para provar meu ponto de vista. Quando puder, dê uma olhada! 😉 Abraços!

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