The Screaming of the Innocent, de Unity Dow

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Alguns livros causam uma impressão tão estranha que é preciso vários dias, por vezes mesmo meses, para digeri-los totalmente. Poucas vezes um livro me deixou tão confusa quanto O grito dos inocentes [tradução livre], da autora botsuana Unity Dow.

Em seu segundo romance, Dow remete-nos a um país do qual quase nunca ouvimos falar, e cuja imagem ela apresenta por meio do contraste entre extremos. Por um lado, acompanhamos a tentativa da juventude citadina de se auto-afirmar como um país moderno e civilizado, diferente, cito, “desses países africanos por aí”. Por outro, essa mesma modernidade auto-imposta é atropelada por males universais, como o machismo e a corrupção, e por outros (assim espero) nem tanto, como uma rusticidade retrógrada, bárbara e supersticiosa, materializada na crença cega no poder da magia negra.

Logo nas primeiras páginas, travamos conhecimento com um homem de negócios considerado, sob todos os aspectos, um “homem de bem”. Enquanto leva a mimada filha mais nova para passear, ele observa uma menina pobre, mal chegada à puberdade, a brincar inocentemente. Pouco depois, a mesma menina será dada como desaparecida, e sua morte explicada pela polícia como consequência do ataque de animais selvagens. No entanto, tudo indica que ela fora vítima de algo muito mais brutal: um assassinato ritual (ritual murder), no qual a presa ainda viva tem os seios, as axilas e as partes genitais decepados, para serem em seguida consumidos pelos poderosos locais, como meio de aumentar ainda mais o seu poder. Cinco anos mais tarde, as únicas provas do crime, que haviam convenientemente desaparecido, são reencontradas por uma estagiária no hospital da aldeia onde vivia a menina, o que leva à revolta dos aldeões, bem como a uma eventual tentativa de negociação com as autoridades.

A fim de tematizar o assunto de chocante atualidade, a autora optou acertadamente por uma narrativa em terceira pessoa, que transita de uma personagem a outra. Como resultado, temos contato com diferentes pontos de vista, que são ao mesmo tempo complexos fragmentos de realidades divergentes, formando um dialogismo quase bakhtiniano. Ademais, a autora preocupou-se em explorar o histórico de diversas personagens secundárias, narrado por meio de flashbacks, o que nos permite percebe-las em sua complexidade, e vislumbrar um pouco mais de uma realidade que beira o absurdo. Nesses momentos, fica latente a crítica político-social intendida por Dow, também conhecida por seu trabalho juíza e ativista dos direitos humanos.

Contudo, embora a trama seja por si só um motivo para estranhamento, não é dela que descende o mal-estar causado pelo livro. O que nos parece uma escolha muito menos acertada é o fato de que as personagens que tentam desvendar o mistério são todas surpreendentemente imaturas: estudantes de liceu recém-formadas ou advogadas em início de carreira, cuja frivolidade (estereo)típica da idade conferem ao livro breves interlúdios de um humor inusitado e mesmo incômodo.

A julgar pela acurada construção das personagens e pela boa condução da pluriperspectividade narrativa, somos levados a acreditar que deve haver alguma intenção por trás dessa escolha muito pouco ortodoxa. No entanto, ao cabo de pouco mais de 200 páginas, tenho que confessar que não cheguei a descobrir que intenção era essa. Culpa da autora, culpa da leitora? Eis um mistério que não me arrisco a tentar resolver.

Título original: The Screaming of the Innocent

País: Botsuana

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2002

Edição em português: não há

Edição inglesa: Spinifex (ISBN: 978-187-6756-20-8)

Número de páginas: 215 (edição inglesa)

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