O bônus da quarta: Amálgama, de Rubem Fonseca

Fonseca_Amalgama

Para compensar minha ausência de quatro semanas, bem como para provar que quatro semanas sem resenhas publicadas não necessariamente significaram quatro semanas sem livros lidos, decidi, a partir de hoje, presentear os leitores com uma resenha especial às quartas-feiras. A essa pequena série, que terá como foco textos contemporâneos da literatura brasileira, ouso dar o título de “o bônus da quarta”.

E quem melhor para abrir uma série especial senão um de nossos escritores mais lúcidos, queridos e prolíferos? É claro que se trata do grande mestre Rubem Fonseca, que, no auge dos seus noventa anos, ainda continua a escrever diariamente, tendo publicado, apenas desde a virada do milênio, cinco romances, seis volumes de contos e um de crônicas. Amálgama, seu penúltimo livro, consiste numa coletânea de contos, e oferece ao leitor uma pequena amostra de que sua pluma continua mais afiada do que nunca.

Ao longo das 34 histórias predominantemente curtas e de difícil catalogação que compõem o livro, Fonseca esmiúça o universo que o consagrou como um dos autores mais polêmicos da geração pós-64. Nelas, ganham voz as minorias étnicas e sociais, um submundo marcado pela criminalidade e pela ausência de escrúpulos, bem como todo tipo de pequenas vilanias que permeiam o cotidiano das grandes cidades na era pós-industrial. Seus heróis continuam cínicos, alguns deles doidos, embora cada vez mais desencantados com o mundo, e apresentam por vezes um refinamento cultural e uma consciência inusitados.

Sequestros-relâmpago, assassinos de animais de estimação, justiceiros urbanos, tráfico de bebês, infanticídios e parricídios coexistem no universo fonsequiano, o qual, se não tem a intenção de mimetizar o real, tenta pelo menos reproduzir a realidade construída pelos jornais sensacionalistas e programas de TV. Trata-se de contos ásperos e, em sua grande maioria, com desfechos impactantes, que estabelecem amiúde um diálogo direto com assuntos fortemente mediatizados. Por vezes, o flerte com o sensacionalismo torna-se particularmente marcante – como por exemplo em “O filho”, no qual uma criança nascida sem um braço é jogado pela mãe na lata de lixo. Em outras ocasiões, o esdrúxulo dá lugar ao inverossímil, como no conto “Devaneio”, em que um homem gasta todas a sua herança para realizar o antigo sonho de furar um peito de silicone com uma agulha. Como não poderia deixar de ser, o humor e a ironia fazem-se presentes, seja na fantasia fetichista com anões e corpos deformados, seja no olhar áspero e sem rodeios sobre as mazelas da sociedade. Em todo caso, ao lado da linguagem seca e da estetização consciente da violência, predomina um humor negro, profético, mas não de todo resignado, desses que preferem dançar à beira do abismo a chorar diante da tragédia.

Do ponto de vista formal, não estamos diante de textos que buscam explorar os limites da narrativa ou desbravar, por meio da experiência da violência, novos caminhos para a linguagem literária. Pelo contrário: os contos de Amálgama são predominantemente lineares, e se desenvolvem seja por meio de um relato confessional em primeira pessoa, seja pelo relato objetivo e jornalístico que marcaram a carreira do autor ao longo do século XX. Nesse sentido, é possível afirmar que o livro oferece um pouco mais do mesmo. Mas por que, afinal, mexer num time que já está ganhando desde 1963?

E que venha mais Fonseca!

Título original: Amálgama

País: Brasil

Idioma original: português

Ano de publicação: 2013

Edição brasileira: Nova Fronteira (ISBN: 978-852-0935-36-1)

Edição portuguesa: Sextante (ISBN: 978-989-6761-20-2)

Número de páginas: 160 (edição brasileira), 144 (edição portuguesa)

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