Anubis, de Ibrahim al-Koni

al-Koni_Anubis

O primeiro livro que lemos sobre um país desconhecido tende a marcar para sempre a nossa visão sobre ele. Alguns anos antes de ler o meu primeiro livro da Líbia, descobri o meu primeiro livro sobre ela: o importante (e revoltante) No harém de Khadafi, escrito pela jornalista francesa Annick Cojean, que me abriu as portas a uma sociedade na qual todos os homens são potenciais estupradores e todas as mulheres potenciais presas. A partir de então, passei olhar todas as meninas líbias que conhecia com um misto de curiosidade e pena, imaginando os horrores aos quais elas, ou suas parentes, poderiam ter sido vítimas. E ignorando que a Líbia é muito mais que a sua história recente.

Por sorte, meu primeiro livro da Líbia veio a abrir-me os olhos para um universo fascinante, milenar e pouco conhecido, muito diferente do mundo de pesadelos descrito por Cojean. Trata-se da cultura dos tuaregues, povo berbere seminômade que habita toda a região do deserto do Saara, de linhagem matriarcal e praticante do animismo, e que devido ao seu isolamento geográfico mantém-se relativamente alheio à famigerada “modernidade”. Uma cultura que Ibrahim al-Koni, considerado um dos mais prolíficos escritores árabes da atualidade, conhece profundamente, sendo ele próprio um filho do deserto.

Erigido a partir do folclore tuaregue, Anubis consiste numa espécie de relato cosmogônico em primeira pessoa, que descreve a trajetória de seu protagonista masculino do nascimento até a morte. Saindo do ponto de partida de todos os homens – o colo materno –, esta figura arquetípica parte em busca do pai, que terá que suplantar a fim de tornar-se ele mesmo um homem completo. Acompanhado por uma série de espíritos, vozes proféticas e djinns, que tentam orientá-lo ou o desviar de seu caminho, ele será duas vezes banido de seu povo devido ao rompimento de um tabu, o que converter-se-á, após uma série de provações, numa oportunidade de se tornar ele próprio o patriarca de um oásis. E, ao final de uma vida decorrida de forma cíclica, encontrará o mesmo destino que espera todos os pais.

Que al-Koni teceu um relato de uma beleza indescritível parece-nos incontestável. Contudo, igualmente incontestável é o fato de que não se trata de um livro fácil. Isso se deve sobretudo à linguagem fortemente metafórica ao ponto de se tornar críptica, como também ao grande teor de reflexões filosóficas, e ao emprego de palavras que podem parecer deslocadas de contexto, mas que revelam um pouco da maneira de pensar desse povo tão distante. O capítulo final, composto por uma grande lista de aforismos tuaregues, permite-nos compreender elementos-chaves da sua cultura, como a relação com o deserto, a forma de tratamento das mulheres, e os valores que regem a sua sociedade.

Aqueles que estiverem habituados à leitura de relatos míticos, como a Bíblia, a mitologia arturiana ou as Eddas, terão menor dificuldade em mergulhar no universo de Anubis. Mas mesmo aqueles que não estiverem deveriam fazê-lo. Afinal, estamos diante de um livro único, belo, e puro, desses capazes de sintetizar em poucas páginas toda a história da humanidade.

Título original: أنوبيس

País: Líbia

Idioma original: árabe

Ano de publicação: 2002

Edição brasileira/portuguesa: não há

Edição em inglês: American University in Cairo Press

(ISBN: 978-977-4166-36-5)

Número de páginas: 184 (edição em inglês)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s