The Garden of Evening Mists, de Tan Twan Eng

Tan_Garden

Antes de ingressar numa longa viagem, é sempre bom saber um pouco daquilo que nos espera. Algumas pessoas dedicam-se à leitura de guias turísticos, escritos em sua maioria por e para estrangeiros. Eu não: aboli há alguns anos o Lonely Planet. Substitui-o pela literatura. Por isso, em meio a uma semana particularmente cheia de preparativos, encontrei n’O jardim das brumas noturnas a mais perfeita introdução à Malásia.

No final da adolescência, Yun Ling, a protagonista-narradora, é mandada com a irmã Yun Hong a um campo de trabalhos foçados japonês. Yun Hong, que era apaixonada por jardins japoneses, não resiste, e ela, a única sobrevivente de todo o campo, promete mandar construir um jardim em sua memória. Anos mais tarde, encontramos Yun Ling como uma juíza implacável, encarregada de mandar à forca os condenados pelos crimes cometidos durante a guerra. Depois de uma altercação com seus superiores, ela abandona Kuala Lumpur rumo às montanhas malaias, onde vive Aritomo, um homem que fora outrora o jardineiro oficial do imperador do Japão. Em vez de conseguir convence-lo a criar um jardim para Yun Hong, a antiga vítima dos japoneses acaba por se tornar aprendiz desse jardineiro misterioso, que lhe ensina muito mais que a arte da jardinocultura, apontando-lhe talvez um caminho para a libertação.

O livro trata de um tema delicado com uma sensibilidade da qual só mesmo os orientais seriam capazes. A começar pelo fato de que é narrado em três planos temporais distintos. O primeiro, o presente, funciona como uma espécie de moldura, e nos revela uma Yun Ling fragilizada pela doença, que tenta registrar suas lembranças para que elas não se percam com a sua memória. O segundo, durante a guerrilha comunista dos anos 1950, consiste no plano principal, e nos mostra uma protagonista forte e rancorosa, tentando vencer seus demônios a fim de construir o jardim. Contrariando as expectativas ocidentais, o terceiro, que embarca a Segunda Guerra, é evocado apenas no fim, como uma espécie de “pretérito mais que perfeito” – passado dentro do passado. Com isso, o livro não foca, como seria de se esperar, no sofrimento Yun Ling no campo de concentração japonês, mas sim no seu longo e interminável processo de cura.

Embora os complexos episódios históricos que definiram a identidade malaia estejam sempre em pano de fundo, não se pode classificar este romance como estritamente histórico. Pelo contrário, pode-se dizer que se trata de um estudo sobre a existência humana, que aborda temas como a importância da memória e do esquecimento, bem como o conceito de culpa (seja ela individual ou coletiva). Com uma escrita ricamente formulada e repleta de simbolismos, o livro de Tan Twan Eng introduz o leitor a um universo que lhe é seguramente desconhecido ao abordar temas históricos como o colonialismo no sudeste asiático, os campos de trabalhos japoneses, bem como, por meio de suas personagens secundárias, a formação da identidade sul-africana. Seu grande mérito consiste em tecer uma intrincada rede entre opostos, como o amor e a guerra, a arte e a destruição, a liberdade e a guerrilha, o jardim e a tortura, de modo a dar vida às paisagens bucólicas do interior malaio.

Ver o mundo sem os livros é como olhar a fotografia de alguém que não conhecemos. Visitar um lugar sobre o qual já lemos faz com que tenhamos a impressão de estarmos a visitar velhos amigos. Afinal, viagens à parte, a literatura continua a ser a melhor maneira de descobrir o mundo.

Título original: The Garden of Evening Mists

País: Malásia

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira/portuguesa: não há

Edição inglesa: Myrmidon Books (ISBN: 978-190-5802-49-4)

Número de páginas: 448 (edição inglesa)

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