Trem noturno para Lisboa, de Pascal Mercier

Mercier_Comboio

Uma mulher, talvez – talvez não – à beira de cometer suicídio, cruza-se com um homem numa ponte num dia de tormenta. Quando um número de telefone lhe vem à mente, ela, como qualquer pessoa normal, serve-se mais que rapidamente de uma caneta e o escreve… na testa do desconhecido! Ele, enfeitiçado pelo efeito da mulher misteriosa, decide levá-la para assistir uma aula sua num liceu de Berna. Ao olhar-se no espelho do lavabo, decide não apagar o número da testa. No meio da aula, a mulher vai embora, e já nunca mais ouviremos falar dela. Quanto ao número de telefone, diga-se de passagem, também nunca será usado. Mas o arrebatamento pela língua falada pela estranha (o português) é tamanho que o homem decide dirigir-se a uma livraria hispânica, pegar no primeiro livro em português que encontra, e precipitar-se para fora de sua vida monótona em busca… da mulher da ponte? Não! Do autor do livro, está claro. Porque a trama deste livro faz mesmo muito sentido.

Trem, ou Comboio, noturno para Lisboa trata do “encontro” entre duas personagens egoístas, enfadonhas, arrogantes, e incapazes de viver no mundo real: Gregorius, um professor de línguas clássicas suíço, e Amadeus, o escritor, um médico português falecido há algumas décadas. Os nomes dos protagonistas foram mesmo bem escolhidos: condizem fielmente com as suas personalidades.

Filho insuportavelmente mimado da aristocracia lisboeta, desses que culpam o pai pelos problemas da humanidade, Amadeus era tão focado na imagem que dele faziam que decidiu tornar-se militante para melhorar sua autoestima. Gregorius, o suíço enfadonho, identifica-se com seus escritos, e decide bancar o Sherlock e reconstruir a trajetória de Amadeus. Se é que se pode chamar Sherlock a alguém predestinado a descobrir a história toda: ele simplesmente tropeça na vida do escritor em cada pedra de uma Lisboa convenientemente “realojada” para se transformar em cenário. No primeiro cemitério em que entra, lá está a sua tumba. A oftalmologista que o atende é logo a sobrinha de um antigo companheiro. E realojamentos é o que não falta: Mercier não apenas reescreve o percurso do Elétrico 28, como também o curso da própria História, falando em “esbirros de Salazar” em plenos anos 1970, embora o ditador tenha pendurado as chuteiras já em 1968. Mas nem são as incoerências históricas, geográficas ou comportamentais o que mais incomoda no Comboio. Mais irritante ainda é o filosofismo carregado de pedantismo, desses de cansar beleza até de estátua de mármore, sobretudo no “livro dentro do livro”: páginas intermináveis do blablá auto-piedoso de Amadeus.

Terá sido por vergonha que o autor, Peter Bieri, optou por publicar o livro sob o cognome de Paul Mercier? Ou terá sido um trocadilho com o inglês, um pedido implícito de mercy (piedade) aos críticos literários? Seja como for, a dura realidade é que Trem noturno tornou-se rapidamente num fenômeno de vendas, ganhando rapidamente uma versão cinematográfica um bocado menos medíocre. Freud explica?

Em um determinado momento, Gregorius, o arrogante número 1, afirma que existem dois tipos de pessoas – as que leem, e as que não leem, e que é fácil distingui-las. Correndo o risco de ofender muita gente, mas mantendo-me fiel ao meu princípio de não empregar eufemismos, permito-me fazer uma correção. O que existe não são dois, mas três tipos de leitores – os que leem, os que não leem, e os que leem livros como o de Pascal Mercier. Infelizmente, sou obrigada a me incluir nesta terceira categoria.

 

Título original: Nachtzug nach Lissabon

País: Suíça

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2004

Título brasileiro: Trem noturno para Lisboa

Edição brasileira: Record (ISBN: 978-850-1083-48-7)

Título português: Comboio nocturno para Lisboa

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN: 978-972-2029-83-4)

Número de páginas: 462 (edição brasileira), 424 (edição portuguesa)

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