O jantar errado, de Ismail Kadaré

Kadare_Jantar

De todos os países da Europa, a Albânia é certamente o menos europeu. Há alguns anos, atravessar a fronteira de Ulcinj, no Montenegro, a Shkoder, na Albânia, foi para mim como abandonar um território seguro e ingressar nas profundezas da Idade Média. De todos os países da Europa, a Albânia é também um dos menos conhecidos. Pouca gente sabe dizer onde se localiza este pequeno país mediterrânico que até há pouco vivia sob uma ditadura comunista aliada à China. Mas essa terra incognita abriga um nome algo familiar, nem que seja devido ao sucesso da adaptação cinematográfica de seu romance Abril Despedaçado: Ismail Kadaré, diversas vezes cotado para o Nobel da Literatura.

O jantar errado, publicado em Portugal sob o título de Um jantar a mais, narra a história tragicômica de um encontro entre dois antigos colegas de faculdade, e das consequências por ele causadas ao longo de mais de uma década. A trama se desenrola em Girokastra, terra natal de Kadaré, e tem por protagonistas dois ginecologistas, o doutor Gurameto Grande, e o seu rival, o doutor Gurameto Pequeno.

Durante a segunda guerra mundial, a pequena cidade com complexos de centro do mundo torna-se palco de acontecimentos vultuosos: Gurameto Grande, admirador do poder bélico alemão, recebe a inesperada visita de um velho amigo, um general nazista encarregado de anexar a Albânia. Ao acolher o visitante com todas as honrarias do código de hospitalidade albanês, o médico acaba por salvar da morte 80 homens condenados pelo general – dentre eles até mesmo um judeu. Como ninguém sabe o que foi conversado durante o jantar, a cidade se entretém a brincar de telefone sem fio, espalhando boatos ora de louvor, ora de repúdio ao anfitrião forçado.

Mas é após a queda do Terceiro Reich e a tomada de poder do Partido Comunista que a coisa realmente se complica, fazendo de Gurameto uma espécie de Geni da canção de Chico Buarque: outrora considerado um herói, ele passa a ser considerado um traidor da nação. A partir deste ponto, não apenas Gurameto Grande, mas também seu pobre alter ego Gurameto Pequeno, que nada tinha a ver com a história, tornam-se vítima de um mecanismo absurdo e cruel, que não lhes dará direito de defesa.

Diversos aspectos caracterizam O jantar errado como um livro original. A começar por quase não conter personagens coadjuvantes: todos eles se misturam formando a “voz da cidade”, uma voz que muda de opinião e de partido político como quem troca de cuecas. Depois, pelo próprio estilo narrativo de Kadaré, que se deixa levar pelas pseudoverdades e acaba confundindo o leitor num imbróglio em que já não se sabe o que de fato aconteceu. E é o absurdo, aliado ao pano de fundo político, que nos mostra com brilhantismo que a realidade muitas vezes não tem pé nem cabeça.

Sem deixar de lado a ironia e a autocrítica, Kadaré descreve um verdadeiro circo de aberrações, revelando o lado perverso e nada coerente daquele que é conhecido como o “regime democrático popular”. O resultado de seu trabalho é um livro curto, delicioso e extremamente divertido. Afinal, rir para não chorar é por vezes o melhor remédio.

Título original: Darka e gabuar

País: Albânia

Idioma original: albanês

Ano de publicação: 2008

Título brasileiro: O jantar errado

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN: 978-853-5922-30-1)

Título português: Um jantar a mais

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN: 978-972-5648-83-4)

Número de páginas: 168 (edição brasileira), 176 (edição portuguesa)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s