Eu o chamava gravata, de Milena Michiko Flašar

Michiko Flasar_Krawatte

É possível acreditar que o romance de hoje venha de fato da Áustria? Se a história se passa no Japão, e a autora tem um nome meio japonês, meio tcheco, cabe ao leitor pelo menos o benefício da dúvida. Pois acredite se quiser, mas Milena Michiko Flašar, jovem austríaca de pouco mais de trinta anos, é considerada atualmente uma das maiores promessas da literatura em língua alemã. E não é sem motivo.

Eu o chamava gravata (tradução do título original) narra a história intimista e particularmente emocionante de um encontro casual entre duas gerações de corações oprimidos. Tagushi, o narrador, é um jovem de pouco mais de vinte anos que acaba de deixar, pela primeira vez em dois anos, o quarto minúsculo em que vive na casa dos pais. Trata-se de um dentre os cerca de 100 mil Hikikomori do Japão: pessoas que decidem retirar-se completamente do convívio humano, encerrando-se em seus quartos por anos ou mesmo décadas, como resposta às pressões de uma sociedade cada vez mais opressora. Ōhara Tetsu, um salaryman de 58 anos, perdeu o emprego na firma onde trabalhara por mais de três décadas, mas ainda não teve coragem de conta-lo à esposa. Todos os dias, então, sai de casa à mesma hora, empenhando a lancheira com o bentō preparado pela mulher, e encaminha-se ao parque onde Tagushi igualmente se senta. Aos poucos, os dois solitários, perdidos em sua miséria interior, reparam um no outro, dando lugar a uma amizade improvável e reparadora.

Um olhar tão pungente sobre o outro só poderia vir de alguém que se encontrasse a uma distância perfeita – parafraseando Wim Wenders, nem tão perto, nem tão longe. Graças às suas origens nipônicas, Michiko Flašar está mais que habilitada para cruzar essa ponte, oferecendo-nos uma leitura profunda do Japão contemporâneo, repleta de fascinação, mas igualmente de crítica. Mais do que a oportunidade de exteriorizarem os seus demônios, o que suas personagens ganham com a aproximação é a compreensão de que não estão sozinhas, a consciência de que não são pessoas terríveis, e a esperança de olhar para o futuro com a cabeça erguida. Enquanto a trajetória de ambos se entrecruza, o livro dá-nos a conhecer um universo poético e profundamente melancólico, marcado pela ausência de perspectivas e pelo incomensurável vazio em que se encontram aqueles que, numa sociedade regida por uma cadência mecânica, simplesmente deixaram de funcionar.

Algumas palavras, intraduzíveis, são deixadas em japonês, como por exemplo karoshi, que significa “morte por exaustão devida ao trabalho excessivo”. Por serem termos tão particulares e não encontrarem correspondente em nenhuma língua ocidental, tais palavras dão-nos uma ideia do abismo cultural entre nós e a terra do sol nascente, um país sem dúvida fascinante, mas igualmente perturbador. Se é assim, o que é, então, que o livro tem de austríaco? A resposta é simples e não deixa margem para dúvida: a beleza e a poesia únicas do trabalho com a língua alemã, que ganha em sua pluma uma leveza insustentável.

O livro ainda não foi traduzido para o português, mas pode ser encontrado em inglês ou francês. Se a tradução lusófona demorar muito a sair, eu mesma me habilitarei a faze-la. Afinal, eis um livro que eu mesma gostaria de ter escrito.

Viva a globalização!

 

Título original: Ich nannte ihn Krawatte

País: Áustria

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira/portuguesa: não há

Edição alemã: BTB Verlag (ISBN: 978-344-2746-56-9)

Edição inglesa: New Vessel Press (ISBN: 978-193-9931-14-6)

Número de páginas: 140 (edição alemã), 133 (edição inglesa)

Anúncios

2 thoughts on “Eu o chamava gravata, de Milena Michiko Flašar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s