Cifra, de Mai Jia

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É possível que um lançamento literário alcance 5 milhões de vendas imediatas sem que o “mundo” ouça dele falar? Sim, se o livro em questão tiver sido lançado na China. Eis o caso de Cifra, o aclamado best seller do escritor Mai Jia.

Cifra explora o misterioso universo da espionagem internacional por meio da criptografia, tema recentemente explorado pelo filme The Imitation Game. No entanto, aquilo que Alan Turing realizou com a ajuda das máquinas, Ron Jhinzen, o misterioso protagonista do livro de Jia, faz usando como único instrumento seu cérebro prodigioso. Órfão de pai e mãe, Jhinzen cresceu largado feito um animalzinho selvagem, criado por um velho estrangeiro especialista na interpretação dos sonhos. Matemático autodidata, o menino é descoberto e colocado sob a tutela de mestres de renome. Para explicar sua genialidade, o narrador, um jornalista curioso, explora primeiro a genealogia, chegando mais tarde à infância, juventude e maturidade, até o seu recrutamento forçado por uma misteriosa agência de inteligência em plena Guerra Fria. Nela, o rapaz tímido e de personalidade autística acaba por se tornar um obscuro herói nacional ao quebrar prodigiosamente os códigos mais complexos. Longe de ser onisciente, o jornalista tenta reconstruir o gênio por meio de entrevistas com figuras que fizeram parte de sua vida, obtendo por resultado um mosaico de informações cuja filtragem cabe ao leitor. Trata-se de um herói tão reservado e misterioso, ele mesmo mais indecifrável que qualquer código secreto, que nem mesmo uma espiadela ao seu diário ajudaria a desvendar sua personalidade. Jhinzen é, ele mesmo, a cifra que devemos decifrar.

Muita coisa já foi dita a respeito de Cifra: que é um livro surpreendente “vindo de um autor daquela parte do mundo”, que é um herdeiro legítimo de Kafka e Agatha Christie, ou mesmo que apresenta uma deficiência crônica de profundidade psicológica. Embora os três comentários careçam de pé e cabeça, é o último que realmente me incomoda. Não que não seja verdade: Jia de fato não deixa espaço para explorações subjetivas. O problema são as conclusões esdrúxulas que os críticos tiram daí – como dizer que isso reflete a alienação da cultura chinesa. Balela! Trata-se tão somente de uma escolha narrativa, que aliás nem sequer é tão rara, e cujo resultado é a impossibilidade de profundidade psicológica. Quando o Nobel peruano Vargas Llosa fez exatamente o mesmo em O sonho do Celta, ninguém achou minimamente estranho. Então, em vez de ver aí um resquício da sociedade coletivista dos chineses, ignorantes – coitados! – das maravilhas do individualismo, não seria mais razoável o ver como, simplesmente, um recurso literário? Uma escolha do autor, fruto do livre-arbítrio de que gozam os artistas – tanto aqui como do outro lado do mundo?

Quem diz que Cifra é o tipo de livro que nunca se poderia esperar de um autor chinês 1) não conhece a China, 2) ignora completamente os autores da China, 3) não tem a menor ideia das preferências dos seus leitores. Aliás, eu também não conheço a China. Justamente por isso, em vez de perder o meu – nosso – tempo com comentários baseados em estereótipos made in imprensa ocidental, limito-me a fazer o que sempre faço: uma resenha. De um livro que, aliás, também considero uma obra-prima.

Ainda que os fãs de literatura normalmente sejam alérgicos às ciências exatas, nem a capa nem o título devem preocupar: suas doses de matemática são não apenas digeríveis, mas também parte inextricável de uma leitura apaixonante. Palavra de leitora sem talento aritmético!

 

Título original: 解密

País: China

Idioma original: chinês

Ano de publicação: 2002

Edição brasileira: não há

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN 978-989-7222-00-9)

Número de páginas: 390 (edição portuguesa)

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