Beneath the Darkening Sky, de Majok Tulba

Tulba_Sky

Há poucos meses, ao publicarmos a resenha de Allah n’est pas obligé, do escritor marfinense Ahmadou Kourouma, anunciamos para breve a leitura de outro livro sobre a triste realidade dos meninos-soldados. Pois esse dia chegou mais cedo que esperávamos: Beneath a Darkening Sky – ou, em tradução livre, “Debaixo de um céu escuro” –, primeiro romance do escritor sul-sudanês Majok Tulba, surpreende ao aliar beleza e crueldade, de modo a fazer um buraco até mesmo em corações de pedra.

Protagonizado pelo pequeno Obinna, um menino feliz e sonhador de apenas nove anos, o livro poderia ser classificado como um “romance de formação em tempos de guerra”. Numa bela madrugada, o menino presencia do alto de uma mangueira a invasão de seu vilarejo por rebeldes que incendeiam barracos, decapitam os homens a golpes de facão, violam as mulheres, e levam com eles as crianças maiores como futuros soldados. Ao testemunhar a agressão da própria mãe, Obinna é descoberto e submetido ao teste para ver se já é suficientemente grande para ser recrutado: ser mais alto que um fuzil Kalashnikov (ou seja, cerca de 88 centímetros). A partir daí, a vida do menino que sonhava tornar-se médico é assinalada pelo medo, por torturas diárias, pela presença constante da morte de seus companheiros de sina, e pela impossibilidade de fuga devido às minas antipessoais. Durante muito tempo, Obinna lutará com todas as forças para manter, se não a identidade, ao menos parte de seus valores, num mundo em que a piedade é também sentença de morte. Até que o destino o obriga a disparar o primeiro tiro… Haverá, enfim, uma possibilidade de redenção?

Ao contrário do que ressentimos com Allah n’est pas obligé, Beneath a Darkening Sky promove a identificação imediata do leitor com a personagem principal, sobretudo devido à profundidade psicológica de Obinna, e ao fato de o autor ter feito dele uma criança tão comum: um menino franzino e estudioso, vivendo em um lar amoroso, com planos e sonhos para o futuro. Nesse quesito, é notável a tentativa do autor de mudar o tom da voz narrativa para assinalar a transformação forçada imposta à criança, embora a quebra demasiado brusca se confronte com o credível.

A todos aqueles que tiverem a louvável iniciativa de ler este livro, recomendo assistirem em paralelo uma entrevista com o autor, radicado na Austrália desde 2001, cujo destino poderia ter sido aquele de seu protagonista. Com uma humildade impressionante, Tulba nos conta que também foi colocado ao lado de uma AK-45, mas que felizmente ainda era menor que a arma. E faz um alerta: por mais brutais que sejam as cenas de violência de Beneath the Darkening Sky, o livro não contém exageros. Pelo contrário: ele evitou mencionar suas memórias mais pesadas a fim de poupar a sensibilidade do leitor ocidental. A julgar por suas palavras, acusar o livro de sensacionalismo seria imitar o comportamento de políticos do mundo todo: dar as costas para a dura realidade africana.

Talvez este não seja o livro perfeito, mas é certamente o perfeito livro para chorar, se revoltar e refletir.

Eis aqui a entrevista:

Título original: Beneath the Darkening Sky

País: Sudão do Sul

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira/portuguesa: não há

Edição inglesa: Oneworld Publications (ISBN 978-178-0742-41-0)

Número de páginas: 256 (edição inglesa)

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