A mulher sem sepultura, de Assia Djebar

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A mulher sem sepultura, um dos últimos romances escritos pela escritora e feminista argelina Assia Djebar, não é um livro para qualquer um. Djebar, pseudônimo literário de Fatema Zohra Imalayen, morreu em Paris no último mês de fevereiro aos 78 anos, deixando um legado que vai muito além dos livros que escreveu. A autora, que foi por diversas vezes mencionada como uma das possíveis ganhadoras do Prêmio Nobel da Literatura, não é apenas conhecida por sua escrita singular, mas também pelo seu empenho em defender diversas causas relacionadas à emancipação das mulheres no Magreb.*

O livro que escolhemos como representante da Argélia não poderia ser mais emblemático – tanto no que se refere ao trabalho da autora, quanto à história recente do seu país. Trata-se da biografia de Zoulinkha Oudai, uma mulher à frente do seu tempo, que desafiou o exército francês e a opressora sociedade paternalista ao se tornar uma militante durante a sangrenta Guerra da Independência (1954-1962). Filha de um proprietário de terras orgulhoso em poder lhe oferecer instrução formal, Zoulinkha contrasta fortemente com a imagem da típica mulher argelina, a começar pelo fato de que se casou três vezes, todas elas por amor. Mãe de cinco filhos, um deles assassinado pelo exército francês logo após a morte de seu terceiro marido, Zoulinkha é motivada pela tragédia familiar a abandonar a pacata vida familiar, tornando-se a líder local da Frente de Libertação Nacional. Ao abdicar do papel de mãe de dois filhos ainda pequenos a fim de se tornar um ícone da luta armada pela independência do seu povo, a heroína torna-se uma espécie de lenda, cujo nome desperta em seus familiares um misto de respeito e ressentimento.

Mas quem não conhece a história de Zoulinkha Oudai terá grande dificuldade em entende-la por meio do livro de Djebar. É que a trama de A mulher sem sepultura, narrada a partir das lembranças de suas duas filhas – Hania, a mais velha, que já estava casada à época do falecimento da mãe, e Mina, a caçula –, bem como de sua mais fiel companheira, a Dama Leoa, é marcada pela frequente mudança de voz narrativa, por um vai-e-vem entre passado e presente, e pelo constante lamento das narradoras polifônicas. O resultado dessa busca arqueológica é o que poderíamos chamar de uma “biografia afetiva”, ficcional embora baseada numa história verídica, um puzzle repleto de símbolos, pontos de exclamação e reticências. Exageros narrativos esses que, embora o livro tenha lá os seus não poucos momentos de ouro, são lamentavelmente capazes de cansar a paciência até do mais perseverante leitor.

Por honrar a participação feminina na Guerra da Independência, por dar voz a uma história condenada às sombras do esquecimento, e por deixar entrever aquilo que o futuro poderia ter sido, A mulher sem sepultura é um livro digno de grande respeito. No entanto, se levarmos em conta aquela que deveria ser a função primeira da literatura de ficção – o prazer da leitura –, é escusado dizer que o combate de Djebar dificilmente pode ser dado como ganho.

* Para quem não sabe, nome dado ao conjunto de países do norte da África que inclui o Marrocos, o Sahara Oriental, a Argélia e a Tunísia, ou, em sentido mais amplo, também a Mauritânia e a Líbia.

 

Título original: La femme sans sépulture

País: Argélia

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2002

Edição brasileira: não há

Edição portuguesa: Círculo dos Leitores (ISBN 978-972-7599-86-8)

Número de páginas: 191 (edição portuguesa)

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