Festa no covil & Se vivêssemos em um lugar normal, de Juan Pablo Villalobos

Villalobos_Lugar Para compensar a ausência na primeira semana de abril, a resenha deste domingo será dupla: até porque os livros em questão são tão curtinhos que, mesmo que fossem um, ainda assim teria poucas páginas: trata-se de Festa no covil e Se vivêssemos em um lugar normal, do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos.

Marinheiro de primeira viagem à altura do lançamento de Festa no covil, Villalobos começou logo por uma trilogia, cujo foco é retratar as diferentes facetas da sociedade mexicana “contemporânea”. Lançado em 2010, Festa no covil só pode ter sido classificado como romance por alguém sem a menor noção de gênero narrativo: trata-se nitidamente de uma novela. O narrador em primeira pessoa é um menino de idade indefinida, herdeiro de um poderoso narcotraficante, que vive isolado em um palácio no meio do nada. Uma vez que seu parco conhecimento do mundo seja oriundo da tevê, bem como das “treze ou quatorze pessoas” que conhece, o menino alcunhado Tochtli apresenta uma visão deveras distorcida da realidade, e tenta romper a monotonia de uma solidão forçada cultivando caprichos. O mais novo deles, obter um hipopótamo anão da Libéria para completar seu mini-zoológico, levá-lo-á a esse inóspito país africano, embora as coisas não saiam exatamente como planejado.

Se o próprio autor define Festa no covil como um “experimento”, é preciso reconhecer que o sucesso do mesmo tem limites. Embora a cadência seja leve e a história interessante, o narrador infantil nem sempre convence – mesmo sendo a criança em questão um pequeno príncipe maníaco que vive numa fortaleza sem contato com o mundo exterior. Simplesmente, ao compararmos com outros livros contemporâneos que exploram o recurso da voz narrativa infantil – como o arrebatador Quarto, de Emma Donoghue, e Precisamos de novos nomes, de NoViolet Bulawaio –, o “menino” de Festa no covil parece demasiado forçado. Nada mal para um experimento, mas tampouco bom o suficientemente.

Se vivêssemos em um lugar normal, segundo volume da trilogia, apresenta uma história com um núcleo mais amplo. A ação se desenrola no pequeno povoado de Lagos de Moreno, exatamente no centro do México, em meados dos anos 1980. Orestes, o narrador-protagonista, é filho de um professor de escola pública esquerdista, e vive com os pais e seis irmãos num casebre do “Morro da Puta que Pariu”. Em meio à crise econômica, às tentativas de tomada de poder de rebeldes opositores e ao turbilhão hormonal típico da pré-adolescente, uma de suas maiores preocupações é descobrir se é de fato “pobre” ou se pertence à “classe média”. Quando seus irmãos mais novos, os “gêmeos falsos”, desaparecem, Oreo vê na tragédia familiar a possibilidade de uma ligeira ascensão social, já que as duas bocas a menos significam um aumento considerável no número de tortilhas que lhe cabem. Mais tarde, quando um empreendedor polonês descobre o potencial imobiliário do “Morro da Puta que Pariu”, a família lutará com todas as forças para não ser desalojada – embora saibamos que, na vida real, David é sempre esmagado por Golias.

Narrado com uma linguagem ácida e repleta de palavrões, o livro tece uma acurada crítica sociopolítica, ao mesmo tempo em que explora a questão da identidade social mexicana. Em suas curtas páginas, o autor é capaz de levar o leitor, através da perspectiva do menino, a uma espécie de elucidação dos mecanismos de poder que regem o chamado terceiro mundo, da encruzilhada em que se encontram aqueles que estão na base da pirâmide social, e da ilusão de se poder fugir do sistema. Nesse sentido, e apesar dos contextos histórico-econômicos deveras diferentes, é possível ver no livro um claro paralelo com a condição do pobre no Brasil, em Portugal, ou em qualquer outra parte do mundo.Por tudo isso, e não só pelas detalhadas descrições gastronômicas que deixam qualquer leitor de água na boca, Se vivêssemos em um lugar normal pode ser considerado um livrinho delicioso.

Te vendo un perro, terceiro volume da trilogia, foi lançado em espanhol em outubro do último ano, e ainda não foi traduzido para o português. Se o primeiro não é mal e o segundo é mesmo bom, basta esperar que o terceiro venha a ser ainda melhor!  

Títulos originais: Fiesta en la madriguera e Se viviéramos en un lugar normal

País: México

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2010 e 2012

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5920-26-0 e 978-853-5923-24-7)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 96 (Festa…) e 160 (Se vivêssemos…)

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