A definição do amor, de Jorge Reis-Sá

Reis-Sá_Amor

Escrever a resenha de um único romance de cada país do mundo implica uma escolha que só mesmo um grande leitor conseguirá entender. Ao longo dos últimos treze meses, debati-me com as más escolhas, torturei-me após encontrar, poucos dias depois de ter lido um livro do qual não gostei tanto, um outro que me pareceu irresistível, principalmente por saber que não poderei voltar a ele antes de terminar o périplo de mais de 200 países ao qual me lancei. Muitos leitores e amigos me perguntaram porque eu ainda não tinha lido nenhum livro português, e a resposta era simples: queria adiar ao máximo a escolha, sabendo que seguramente iria me arrepender de tê-la feito, por melhor que fosse o romance escolhido. Mas toda espera chega ao fim. Depois de protelar por mais de um ano antes de eleger o meu representante da terra lusa, eis em primeiríssima mão aquela que talvez seja a primeira resenha de um romance lançado há menos de 20 dias: A definição do amor, do escritor português Jorge Reis-Sá.

A definição do amor narra uma história triste e invulgar. O professor de filosofia Francisco, casado há alguns anos com a bela Susana, com quem tem um filho ainda bebê, recebe num dia de primavera a notícia de que sua mulher se encontra no hospital. Ao lá chegar, descobre que a esposa foi vítima de um AVC, e recebe sem compreender o diagnóstico de morte cerebral. Ao lado da notícia avassaladora, chega-lhe a informação de que ela se encontrava na segunda semana de gestação. Nos meses que seguem, Francisco verá a mulher amada transformar-se na passiva incubadora da filha que lhe tirou a existência, uma vez que o AVC foi causado por essa gravidez indesejada, e passará por um processo de transformação capaz de levá-lo não apenas à aceitação da perda inevitável, mas também a uma espécie melancólica de alegria por aquela vida que lhe tolheu a felicidade.

Os fãs de enredos mirabolantes não encontrarão neste romance um terreno muito fértil. Que mais poderíamos esperar, se a heroína está estática, e o herói-narrador, guardião do seu sonho sem sonhos, permanece quase todo o tempo velando por ela? Quase nada de novo se passa – e o pouco que se passa, acontece sobretudo no plano psicológico. A linguagem, um tanto lírica, pode cansar os leitores menos afeitos à prosa poética; no entanto, é mais que adequada ao tratamento dado ao tema. E o que poderia ter havido de piegas é quebrado por um desfecho mais que inesperado, narrado em poucas linhas, que pegará qualquer leitor desprevenido e terá o efeito impactante de um nocaute.

O livro é constituído por quase 300 páginas que se leem muito rapidamente, graças a uma diagramação generosa e à cadência narrativa. A trama principal, narrada em capítulos divididos por meses, é intermeada por capítulos mais curtos, chamados de “Véspera”, cujas vozes narrativas em primeira pessoa serão no princípio difíceis de compreender. Trata-se do eco da existência de pessoas que já se foram, todas elas indiretamente ligadas ao protagonista: os futuros vizinhos de Susana no cemitério. Por meio dessas vozes do passado, o leitor é confrontado com diferentes – e pouco ortodoxas – histórias de amor, e suas consequências: o amor incestuoso entre uma tia e um sobrinho, o amor homossexual e pedófilo entre um padre e seus pupilos, e assim por diante. Caberá ao leitor confrontar essas histórias alquebradas à trama central. Por fim, não é a reação à morte da pessoa amada o que nos permite visualizar a definição do amor de que fala o título, mas sim o desaparecimento daquele sentimento tão inefável que nos define como seres humanos: a esperança.

Se as livrarias de Lisboa estão repletas de candidatos que me seduzem com suas capas como as sereias de Ulisses, provavelmente me arrependerei cedo ou tarde de ter feito a minha escolha. Já agora, fico no entanto com o sossego de que espera valeu a pena.

Título original: A definição do amor

País: Portugal

Idioma original: português

Ano de publicação: 2015

Edição portuguesa: Guerra & Paz (ISBN 978-989-7021-37-4)

Edição brasileira: não há

Número de páginas: 272

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