O menino da mala, de Lene Kaaberbøl e Agnete Friis

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“O que você faria se encontrasse, dentro de uma mala, um menino de três anos, nu e dopado, mas vivo?” Eis a premissa – e a frase publicitária – de O menino da mala, romance de estreia do duo de autoras dinamarquesas Lene Kaaberbøl e Agnete Friis. Seguindo a moda do bom romance escandinavo da atualidade, trata-se do primeiro de uma série de romances policiais, tendo como protagonista a enfermeira Nina Borg.

Nina é uma mulher de quarenta anos muito pouco afeita a vaidades, casada e com dois filhos, que dedica sua vida a reparar as injustiças do mundo. Depois de anos trabalhando em campos de refugiados mundo afora, de volta à cidade de Copenhagen, a moça tenta juntar os cacos de uma vida familiar conturbada, enquanto dedica boa parte de suas energias a ajudar imigrantes ilegais e pessoas que procuram asilo político. Numa bela manhã, uma antiga amiga de faculdade pede-lhe para retirar um pacote deixado no porta-bagagens da estação de Copenhagen. Dentro dele, Nina encontrará um menino de três anos, nu e desacordado, mas aparentemente em boa saúde. Depois de presenciar o mesmo armário a ser brutalmente atacado por um grandalhão leste-europeu, e farejando tráfico humano, Nina decide não entregar o caso à polícia, mas sim tomar o menino a seu cargo, tentando ela mesma descobrir suas origens.

O livro, que foi um sucesso imediato na Escandinávia, concorreu, à altura de seu lançamento, aos mesmos prêmios literários que a trilogia Millenium, ficando obviamente com o segundo lugar. E se acabou por se tornar conhecido tardiamente no estrangeiro, deve-o sem dúvida à genialidade de seu concorrente, responsável em grande parte pelo sucesso mundial do gênero policial escandinavo. Comparado a um Stieg Larsson, a trama de O menino da mala é pouco complexa, suas personagens previsíveis e, a meio do romance até o leitor menos perspicaz já conseguiu decifrar o mistério. Como detetive, Nina Borg é tão descuidada como a russa de Até que a tua morte nos separe, e, se não acaba com um tiro na cabeça, é só porque as autoras precisavam dela para os volumes seguintes. Por outro lado, Kaaberbøl e Friis foram bastante felizes na escolha do foco narrativo, que transita o tempo todo de uma personagem à outra, dando ao leitor uma ótima perspectiva não apenas das ações, mas também do histórico familiar e das motivações de todas as suas figuras centrais.

O leitor que nunca entendeu muito bem como funciona isso de escrever a duas plumas pode estar desde já descansado: a parceria das autoras realmente funciona. Mais do que isso, e graças às diferentes perspectivas, o romance apresenta uma interessante polifonia: heróis, vítimas, mandantes e vilões têm, igualmente, a chance de se apresentar diante do leitor, provando aquela velha verdade da qual a literatura de ficção muitas vezes se esquece: ninguém é apenas bom ou apenas mau – a vida é alheia a maniqueísmos.

Não que estejamos diante de uma nova grande pérola da literatura contemporânea, mas a narrativa é fluida e bem escrita, as personagens carismáticas, e a edição brasileira bela, bem encadernada e relativamente barata. Ou seja, um livro para ser devorado em poucas horas – até porque dificilmente conseguirá para-lo antes de chegar ao último ponto final.

Título original: Drengen i kufferten

País: Dinamarca

Idioma original: dinamarquês

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Arqueiro (ISBN 978-858-0411-83-6)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 251 (edição brasileira)

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