O amor dos peixes, de Steinunn Sigurðardóttir

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Histórias de amor são universais e facilmente compreensíveis, certo? Errado! Se nunca lhes aconteceu de ler de cabo a rabo um romance – no sentido popular do termo, ou seja: uma história de amor – e, ao chegar ao final da trama, ter a impressão de não ter entendido absolutamente nada, nem se identificado minimamente com os sentimentos das personagens, está na hora de ler “O amor dos peixes”, da complicada islandesa Steinunn Sigurðardóttir.

No plano externo, o livro está recheado de símbolos e metáforas pertencentes ao cliché amoroso. Samanta encontra Hans Örlygsson num castelo no estrangeiro, ela mesma residente eventual de um pequeno palácio remanejado. Ele, um empresário de sucesso de 29 anos; ela, uma editora da mesma idade que dedica seu tempo livre a traduzir velhos poemas de amor indianos. Depois de longas horas de conversa, os dois decidem se conhecer melhor em um restaurante chamado “A rosa negra”. Evidentemente, ele encomenda a garrafa de champanhe mais cara. Os dois sentam-se a uma mesa decorada com uma rosa laranja. Ela diz: “minha cor preferida de rosa.” Ele replica: “Porque é mais vermelha que o vermelho.” Ela responde: “Porque não é vermelho.” E o leitor se desespera: “What the h***?”

No plano interno, no entanto, o lirismo dá lugar a outra coisa. O galã bate à sua porta: ela prefere fingir que não está e observá-lo da janela enquanto corta as unhas dos pés. Os dois se reencontram eventualmente num aeroporto: ele se apresenta aos pais dela, ela se recusa a oferecer-lhe carona. Três anos se arrastam, e os dois só se encontram furtivamente: ele se casa, tem um filho, mas de vez em quando se lembra de bater à sua porta. Ela, que o recusou até o fim, que queria ser uma mulher independente, dona do seu próprio destino, se envolve com um quarentão pai de dois filhos adolescentes e apaixonado pela ex-esposa psicótica. Hans Órlygsson e Samantha continuam a se cruzar magicamente, a trocar palavras incompreensíveis, a caírem nos braços um do outro de vez em quando, e ela eventualmente se apercebe que ele é o homem da sua vida. Mas aí, é claro, já é tarde demais. Quem mandou cortar as unhas dos pés enquanto ele esperava plantado do lado de fora, num jardim habitado por pavões?

O livro, vendido pelo editor estrangeiro como um romance, não passa de uma novela de pouco menos de cem páginas, mas nem por isso fácil de digerir. Vale pelo frio da ilha do fogo e do gelo, pela paisagem bucólica em eterna transformação, pelas eternas geleiras e verões inesquecíveis, e pelo desafio de tentar entender aquela que talvez seja a heroína mais enrolada da história da literatura.

Se um relacionamento amoroso é uma coisa complicada por excelência, essa pequena historieta islandesa prova que suas manifestações podem ser ainda mais estranhas e abstrusas do que se poderia imaginar.

Título original: Ástin fiskanna

País: Islândia

Idioma original: islandês

Ano de publicação: 1993

Edição em português: não há

Outras edições: alemão (rororo, ISBN 978-349-9234-94-1)

Número de páginas: 96 (edição alemã)

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