Alá não é obrigado, de Ahmadou Kourouma

Kourouma_Allah

A realidade dos meninos-soldados no final do século XX é um dos temas mais recorrentes da produção cultural africana, tendo dado origem a romances, documentários, filmes e memoirs.* Trata-se de um daqueles temas polêmicos de forte tendência sensacionalista e sucesso garantido, como a sobrevivência dos judeus na Segunda Guerra Mundial, os casamentos forçados no Oriente Médio, e o tráfico de mulheres para a prostituição internacional. Afinal, que grande leitor não se deixa seduzir por uma narrativa em primeira pessoa sobre uma das maiores mazelas do nosso tempo?

Birahima é um menino guineense “sem medo nem censura”. Apesar da miséria do meio em que vive, ele cresce com pai e mãe até por volta dos dez anos, quando a mãe deficiente falece depois de uma agonia de anos. Fica decidido então que ele será criado por uma tia materna que vive na Libéria, mas a tia, que foge em carreira aberta ao ouvir o rumor da chegada do ex-marido, esquece de levar o menino com ela. Como mais ninguém se habilitasse a atravessar os cenários de guerra de Sierra Leone e Libéria para acompanhar o menino numa trajetória suicida, ele acaba sendo acompanhado por um conhecido trambiqueiro, o “multiplicador de bilhetes” Yacouba, que se faz passar por feiticeiro muçulmano a fim de cair nas graças dos senhores de guerra que eles vão cruzando pelo caminho. Trata-se de uma viagem sem volta, de um rito iniciatório durante o qual o então inocente Birahima confrontar-se-á com um mundo de uma crueza inimaginável, repleto de estupros, drogas, torturas e massacres, tornando-se ele mesmo um menino-soldado.

Mas quem lê apenas a sinopse dificilmente ganha uma ideia do romance em questão. O livro, que ganhou o disputado prêmio Renaudot do ano 2000, retraça esse período trágico da história da África Ocidental sob a perspectiva de uma criança, que decide, com a ajuda de alguns dicionários, retraçar ele mesmo a sua biografia. E o grande mérito do escritor marfinense Ahmadou Kourouma consiste em faze-lo de forma direta, sem qualquer emotividade ou sensacionalismo, utilizando uma perspectiva tão distanciada que poderíamos interpretar como consequência de stress pós-traumático e distúrbio dissociativo. Se Allah não é obrigado a ser justo com os seres a quem dá vida, é preciso enfrentar o sofrimento com estoicismo. Eis a mensagem semi-religiosa deste romance híbrido e profano.

Mas que o leitor não pense que se trata de uma leitura facilmente digerível. Muito pelo contrário: ler Alá não é obrigado é uma verdadeira tortura! Não porque a violência narrada seja difícil de suportar, mas sim porque a voz narrativa simplesmente não convence. O romance é permeado de digressões de cunho histórico-político, as quais servem sim para contextualizar a leitura, mas que mais deveriam estar em notas de rodapé. Talvez o autor, que já tinha quase oitenta anos quando o escreveu, simplesmente já não fosse capaz de se colocar na pele de uma criança. O resultado é um relato sociológico disfarçado de romance. Uma pena!

*Para quem quiser saber mais sobre o assunto, eis uma pequena bibliografia: Johnny Mad-Dog (filme de 2008), Rebelle (excelente filme de 2012), A Long Way Gone, de Ishmael Beah (memoir de um ex-soldado de Sierra Leone), e First Kill Your Family (livro-documentário do jornalista Peter Eichstaedt sobre o exército de crianças de Joseph Kony no Uganda). O blog oquevcestalendo resenhará brevemente – e inevitavelmente – outros textos sobre meninos-soldados.

 

Título original: Allah n’est pas obligé

País: Costa do Marfim

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2000

Título brasileiro: Alá e as crianças-soldados

Edição brasileira: Estação Liberdade (ISBN 978-857-4480-82-4)

Título português: Alá não é obrigado

Edição portuguesa: ASA (ISBN 978-972-4133-14-0 )

Outras edições: francês (Seuil, ISBN 978-202-0525-71-8) inglês (Knopf, ISBN 978-030-7793-84-3)

Número de páginas: 232(edição brasileira), 176 (edição portuguesa)

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2 thoughts on “Alá não é obrigado, de Ahmadou Kourouma

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