A rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa

Agualusa_Ginga

Se o acaso não existe, foi obra da providência o comentário de A rainha Ginga incidir em pleno Dia Internacional da Mulher. Quantos dos grandes leitores mundo afora terão ouvido falar dessa mítica rainha africana?

Uma semana após publicarmos um texto sobre a condição das mulheres na Arábia Saudita, talvez o país mais opressor do sexo feminino no século XXI, a resenha de hoje nos remete a uma época distante e bem pouco conhecida, na qual Nzinga Mbande Cakombe, também conhecida como Dona Ana de Souza, desafiou a Coroa Portuguesa, liderou exércitos pessoalmente e lutou com todas as forças para manter a hegemonia de seu reino. Estamos falando do princípio do século XVII, entre o início da colonização (ou invasão) portuguesa e a ocupação dos holandeses.

Ginga, figura mítica que seduziu gerações desde o Marquês de Sade até as feministas do século XX, tornou-se rainha após envenenar o próprio irmão, descontente por ele não tomar medidas mais drásticas a fim de impedir os avanços dos portugueses. Para isso, formou uma aliança com o povo guerreiro dos Jaga – uma espécie de Esparta do sudoeste africano –, e, décadas mais tarde, com os holandeses, aos quais ajudou aquando da ocupação de Luanda. Para termos uma ideia de sua importância histórica, basta dizer que seu título real em quimbundo – Ngola – deu origem ao nome do país em que viveu. Embora tenha se convertido ao catolicismo numa tentativa de reforçar os laços com os portugueses, Ginga ficou famosa por seus hábitos “devassos”, como manter um harém de homens travestidos de mulher para fins sexuais. Quanto de verdade há nos mitos que a envolvem, fabulados pelos portugueses que eram os donos da escrita, só nos resta imaginar.

No livro de Agualusa, a monarca é retratada a partir das memórias do pernambucano Francisco da Santa Cruz, agregado à corte de Ginga como uma espécie de secretário, que decide trair suas origens e abandonar as funções sacerdotais, tornando-se aliado dos africanos contra a Coroa Portuguesa. O ex-padre, tornado um apóstata e perseguido pela Inquisição, acaba por se juntar a um grupo de marginais, dentre os quais um judeu com nome de anjo, um mouro de vida tripla, um príncipe do Reino de Ndongo, e um pirata com uma perna de pau. Mesclando personagens fictícias a figuras históricas obscuras, o romance tece um retrato irresistível de uma época fascinante, e cruza oceanos de Angola até o Brasil holandês.

Nele, Ginga surge como uma mulher de pulso firme, não sem uma forte pitada de mistério e exotismo, capaz de seduzir e reger com a força de cem homens. Preocupada com o despovoamento de seu reino devido ao sequestro de homens e mulheres para serem vendidos no Brasil, Ginga é ela mesma senhora de inúmeros escravos, mas condena os portugueses pelo tratamento desumano ao qual estes submetem os seus. Assim, Agualusa oferece uma perspectiva lúcida e crítica sob a história das colonizações. Mas que o leitor não esteja à espera de uma biografia da rainha. Se existe algo que podemos criticar ao autor, é a disparidade entre título e conteúdo: embora a aventura tenha como pano de fundo o reinado de Nzinga, ela está muito longe de ser a sua protagonista.

José Eduardo Agualusa não é um autor desconhecido. Nascido em Huambo quando Angola ainda era uma colônia portuguesa, o autor de ascendência lusa vem caindo nas graças de leitores mundo afora – e quem ainda não o conhece não sabe o que está a perder! Autor de uma prosa inteligente, crítica e ao mesmo tempo divertida, trata-se de uma das grandes promessas da literatura lusófona contemporânea. Para descobrir a Angola, seus heróis e seus encantos, bem como os efeitos nefastos da escravidão do lado de lá, dificilmente poderíamos encontrar melhor ponto de partida.

 

Título original: A rainha Ginga, E de como os africanos inventaram o mundo

País: Angola

Idioma original: português

Ano de publicação: 2014

Edição portuguesa: Quetzal (ISBN 9789897221606)

Número de páginas: 280

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