Antichrista, de Amélie Nothomb

Nothomb_Anthéchrista Amélie Nothomb não é uma autora para qualquer um. Conhecida por sua obsessão pelo sadismo, pela ousadia no tratamento do sombrio, assim como pelo mélange entre fantasia e realidade, essa notável escritora belga de poucas palavras encanta tantos quanto incomoda. Antichrista, lançado em 2003, não faz exceção à regra.

O livro, que em sua edição original não passa das 150 páginas numa formatação generosa, conta a história de Blanche, uma adolescente que, apesar de mal ter completado os 16 anos, cursa o primeiro ano de Ciências Políticas na Universidade de Bruxelas. À exceção da precocidade nos estudos, a menina não sobressai em mais nada – é tímida, introvertida, e tem o físico de uma tábua. Mas sua vida sem eventos se transforma quando uma estudante igualmente jovem interessa-se por ela. Christa, a menina em questão, é o seu antônimo absoluto: linda, extrovertida, cativante, capaz de chamar a atenção e conquistar admiradores por onde passa. Ansiosa por finalmente fazer uma amizade, e ainda mais com uma pessoa da categoria de Christa, Blanche torna-se facilmente sua presa. No entanto, o idílio dura pouco: desprezada por aquela que tão desesperadamente procura agradar, mas que a elegeu como vítima de um jogo marcado pela perfídia, a (anti)Christa não se cansará enquanto não tirar dela absolutamente tudo: seu quarto, o amor de seus pais, seu corpo, sua dignidade. Tomando como premissa a rivalidade feminina na adolescência, a autora explora de maneira ímpar um tema de atualidade universal: a miséria afetiva do século XXI.

Se tem uma coisa da qual não se pode acusar Amélie Nothomb é de verborragia. Muito pelo contrário: a escritora é famosa pela pluma que não faz rodeios, que vai direto ao ponto e mete o dedo na ferida. Não é que ela não se perde em descrições desnecessárias: simplesmente, ela não descreve, deixando a cargo do leitor o prazer de imaginar. E ao mencionarmos prazer, temos justamente em mente uma cena de sadismo de fazer corar o mais fiel dos leitores de Cinquenta Tons de Cinza. Vantagem de um lado, desvantagem de outro: verdade é que a escassez de palavras, característica de seus outros livros, atinge em Antichrista um extremo absoluto, fazendo com que a história, que facilmente poderia ter rendido no mínimo o dobro de páginas, seja praticamente abortada. Como resultado, não dá tempo de haver um verdadeiro desenvolvimento das personagens, e o livro se torna plano ao ponto do inverossímil: nem a juventude de Blanche condiz com sua serenidade de espírito, nem sua inicial passividade bovina com a rápida capacidade de reação.

Dessa forma, desperdiça-se uma boa oportunidade de contar uma história marcante, e aquele que facilmente poderia ter sido o Nabokov do século XXI torna-se uma novela divertida, que ninguém será capaz de abandonar antes de chegar à última página – até porque ela é tão curta que seria quase impossível –, mas que nada tem de inesquecível.

Apesar dos pesares, verdade seja dita: para seus súditos fiéis, a escrita de Nothomb é sempre um deleite. Tão cínica e manipuladora quanto a própria personagem que dá nome ao livro. Ame-a ou deixe-a.

Título original: Antéchrista

País: Bélgica

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2003

Edição em português: Edições Asa (ISBN 978-972-4145-32-7)

Número de páginas: 96

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