O país das mulheres, de Gioconda Belli

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Como seria um país regido inteiramente por mulheres?

Desde a segunda metade do século XX, as mulheres têm ganhado cada vez mais espaço na vida pública. Brasil, Alemanha, Nicarágua, Islândia, Irlanda, Argentina, Chile e Suíça são apenas alguns dos países que têm ou já tiveram uma mulher como chefe de Estado. Contudo, para sobreviver num meio predominantemente masculino, as “presidentas” do mundo têm de ser como a Lady Macbeth: mais “macho” que os próprios homens. Ora, se ter uma mulher no poder significasse uma sociedade menos machista, paternalista ou falocêntrica, no Brasil ninguém mais estaria dançando o “Lepo Lepo”. Mas como seria um país onde todos os cargos públicos fossem preenchidos por mulheres, meninos e meninas recebessem aulas de maternidade, e estupradores fossem expostos e recebessem uma tatuagem na testa? Eis o ponto de partida de O país das mulheres, da premiada escritora nicaraguense Gioconda Belli.

Ao contrário de quase qualquer outro escritor centro-americano, Belli é relativamente conhecida nos países de língua portuguesa, tendo sua autobiografia O país debaixo da minha pele sido recentemente publicada em Portugal. Em O país das mulheres, um grupo de amigas de personalidades distintas funda, meio que por brincadeira, o Partido da Esquerda Erótica, que acaba, devido a uma série de circunstâncias inesperadas, crescendo ao ponto de vencer as eleições. A história se passa na pequena e imaginária república de Fáguas, supostamente situada na América Central, e tem início quando, durante um comício, a sensual presidente Viviana Sansón é vítima de um atentado a bala e entra em estado de coma. A partir daí, a trama é narrada em dois planos. O primeiro descreve os acontecimentos ocorridos no presente, isto é, após o atentado: da comoção nas ruas às tentativas de golpe de Estado. O segundo acompanha as memórias de Viviana desde a espécie de limbo em que a mesma se encontra, de como ela se tornou uma personalidade importante em seu país até chegar a presidência. Tudo isso é permeado por uma série de documentos históricos fictícios, desde entrevistas e planos de governo até reportagens da imprensa internacional.

De certa forma, a utopia de Fáguas inscreve o romance na tradição literária do realismo fantástico de Márquez, Borges e Allende. No que compete à escolha do tema, a autora acertou em cheio: O mito das Amazonas, que permeia a fantasia dos homens (e das mulheres) desde os tempos de Alexandre o Grande, adaptado ao século XXI, faz de O país das mulheres um livro irresistível. No entanto, é preciso reconhecer que a semelhança com os grandes nomes da literatura hispano-americana termina aí.

Lamentavelmente, aquela que poderia ter sido uma excelente oportunidade para refletir os papéis sociais e a posição da mulher na aurora do novo milênio acaba numa superficialidade digna de telenovela: todos os problemas resolvem-se por encanto, toda a oposição desaparece como num conto de fadas. A própria ideia de que, ao prendermos o bandido, o final sempre é feliz, é em si uma traição ao próprio ideal feminista pregado pelo romance. Primeiro, porque nesse caso o “bandido” é uma ideologia arcaica arraigada nas nossas mentalidades. Segundo, porque não existe nada mais machista e antirrevolucionário que contos de fadas e seus finais felizes.

Por fim, prepondera a decepção. Não que se trate um mau livro: muito pelo contrário, a prosa é boa, agradável, interessante e divertida. Mas aí é que mora o problema: no País dos Grandes Leitores, transformar uma ideia tão original num romance “agradável, interessante e divertido” deveria ser considerado crime digno das mais altas punições.

Título original: El país de las mujeres

País: Nicarágua

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2010

Edição brasileira: Verus (ISBN 978-857-6861-22-5)

Edição portuguesa: não há

Número de páginas: 220

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