O russo é alguém que ama bétulas, de Olga Grjasnowa

Grjasnowa_Birken

Falar outros idiomas permite-nos descobrir algumas pérolas literárias que dificilmente chegarão a ser traduzidas. Minha mais recente descoberta é Olga Grjasnowa, uma jovem e bela judia de apenas trinta anos, que imigrou para a Alemanha nos anos 1990 em consequência da sangrenta guerra de Nagorno-Karabakh. Seu país de origem: o Azerbaijão.

Seu primeiro livro, cujo título, traduzido para o português, daria algo como O russo é aquele que ama bétulas, é um daqueles raros romances que, de tão bem escritos, poderiam ser lidos em pouco mais de uma tarde. Para uma autora tão jovem e pouco experiente, chega a ser impressionante a sua capacidade de transportar o leitor para o universo narrativo, dando-lhe os instrumentos necessários para “ver” as cenas como num filme. Isso tudo sem se perder em descrições desnecessárias, mas exigindo-nos a dose necessária de criatividade para preencher as lacunas.

A trama, de forte teor autobiográfico, narra a história de Masha, uma bela imigrante com incrível talento para as línguas, que estuda para tornar-se intérprete e sonha trabalhar na ONU. Se o seu talento linguístico e a sua capacidade de adaptação fazem dela uma “cidadã do mundo”, Masha sofre ao mesmo tempo por não se sentir em casa em lugar nenhum, e carrega em si os traumas de ter vivido parte da infância num cenário de guerra. Quando tem de se confrontar com a morte absurda de uma pessoa que ama, é como se lhe abrissem no peito uma caixa de Pandora: todos os horrores vividos no passado vêm à tona, fazendo com que ela se perca no labirinto de seus próprios pesadelos, enquanto busca desesperadamente por algo que não sabe definir.

Particularmente, uma das surpresas mais agradáveis do livro diz respeito ao olhar crítico de Grjasnowa sobre a Alemanha, bem como à maestria com a qual ela aborda temas tão complexos como as experiências dos “imigrantes” no país. Qualquer pessoa que tenha sido jovem na Alemanha dos anos 2000 identifica-se de imediato com a linguagem, as situações, e os conflitos da protagonista. Mas, como boa parte dessas experiências são universais, todos aqueles que já tenha vivido como estrangeiro em algum lugar poderão também se ver refletir no cotidiano descrito por Masha.

O livro, que começa claro e fácil de ler, vai se tornando turvo à medida em que a protagonista-narradora se afunda em seu estado depressivo, infelizmente ao ponto de ser confuso perto do fim. Ele também acaba mudando de foco, dando mais e mais espaço à crítica a Israel, que faz ecoar as vozes femininas de dois outros livros já resenhados aqui: O povo eterno não tem medo e As madrugadas em Jenin.

Grjasnowa, que esteve no Brasil para a Bienal do Rio de 2013, foi muito comentada na época – portanto, pode ser que seu livro ainda seja traduzido para o português. Só é pena que aqueles que não conheciam o Azerbaijão antes de o lerem vão continuar a não o conhecer depois de fazê-lo. É que, à exceção dos flashbacks nos quais Masha revê episódios da infância, o presente da narrativa transcorre entre Frankfurt, Israel e a Palestina (diga-se de passagem, em Jenin, como no livro de Susan Abulhawa). É certo que as digressões sempre nos permitem conhecer um pouco da história do Azerbaijão após a queda da União Soviética, mas elas não aplacam o desejo de conhecer a Baku dos dias de hoje.

Quem quiser conhecer o Cáucaso terá de esperar por outra resenha!

Título original: Der Russe ist einer, der Birken liebt

País: Azerbaijão

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2014

Edição em português: não há

Edição original: Carl Hanser Verlag (ISBN 978-344-6238-54-1)

Edição em inglês: Other Press (ISBN 978-159-0515-84-6)

Número de páginas: 288 (edição alemã), 336 (edição em inglês)

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