Minaret, de Leila Aboulela

Abouleila_MinaretEm meio à enxurrada de notícias sobre o ataque ao periódico francês Charlie Hebdo, o conflito ideológico Ocidente/Oriente Médio tornou-se, nas últimas semanas, um tema de atualidade pungente. Minaret, romance da autora sudanesa nascida no Egito Leila Aboulela, problematiza essa delicada questão sob a perspectiva de uma mulher à procura do próprio destino.

Minaret narra em primeira pessoa a história de Najwa, uma estudante universitária mimada e ingênua, filha da elite sudanesa, que perde tudo durante o Golpe de Estado de 1985, e passa as duas décadas seguintes tentando redescobrir a própria identidade na cidade de Londres. Seu pai, um empresário de sucesso, é capturado e morto acusado de corrupção, tornando-se um símbolo do Regime derrubado. Intercalando “presente” (2004) e passado, a narrativa de Najwa revela de forma simples como uma menina aparentemente independente, criada para tornar-se esposa e mãe, tenta sobreviver sozinha num mundo que não é o seu, e depois muitos erros, consegue dar sentido à própria vida através de algo novo: a religião.

Ao explorar o Sudão a partir da perspectiva de sua antiga elite nos anos 1980, o livro revela uma Cartum (ou Khartoum, a capital do país) inusitada. Ora, muito antes da implantação da Sharia (a Lei Islâmica), Cartum era uma capital moderna e cosmopolita como outra qualquer, na qual a juventude bebia, fumava e ouvia Michael Jackson, as meninas andavam de minissaia e conduziam, e a prática religiosa era apenas cultivada pelos provincianos e pelas classes sociais inferiores.

No entanto, não se pode dizer que o livro oferece uma imagem honesta do que representa converter-se ao islamismo. Embora os ocidentais sejam deixado de lado, evitando assim a crítica e o conflito de ideologias, o que Aboulela acaba por mostrar é como o estilo de vida ocidental é insatisfatório e inadequado a uma mulher muçulmana. Na verdade, os motivos que levam a protagonista a se tornar uma islamista fervorosa não diferem em nada daqueles pelos quais milhares de brasileiros são levados anualmente às igrejas evangélicas: o vazio existencial e a falta de perspectiva. Mesmo assim, incomoda o crescente maniqueísmo da narrativa, e o fato de que as mulheres muçulmanas que não respeitam as tradições, bem como os árabes ateus e comunistas, sejam forçosamente retratados como insensíveis e maus, enquanto que as mulheres vestindo o hijab e os islamistas fervorosos sejam pais de família honestos e bondosos. Ora, sabemos que as coisas não são tão preto-e-branco assim. Simplesmente, mesmo compreendendo suas limitações inerentes, é difícil simpatizar com uma personagem tão fraca.

Apesar dos pesares, Minaret é um livro que merece ser lido. Nem que seja pelo fato de que não é todos os dias que temos a sorte de nos deparamos com um romance de uma autora sudanesa. Mas que fique bem claro: seria hipocrisia chama-lo, apenas graças a esse exoticismo, de “um livro maravilhoso”. Não se trata, desta vez, de grande literatura – nem no que diz respeito à qualidade narrativa, nem ao desenvolvimento de um tema tão rico e interessante – , mas sim de uma leitura fácil, rápida, mas nem por isso desagradável.

Título original: Minaret

País: Sudão

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2005

Edição em português: não há

Edição inglesa: Bloomsbury (ISBN 978-074-7579-42-7)

Edição espanhola: Icaria (ISBN 978-847-4269-53-6)

Número de páginas: 276 (edição inglesa), 264 (edição espanhola)

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