O museu da inocência, de Orhan Pamuk

Pamuk_Museu

Sabem aqueles romances que, ao chegarem ao fim, deixam o leitor com a sensação de se terem tornado órfãos? Pois assim é O museu da inocência: seiscentas páginas que passam a voar e que provam os motivos pelos quais Orhan Pamuk, Prêmio Nobel da Literatura de 2006, é um dos maiores autores do século XXI.

O livro narra a história de um amor – ou, se preferirem, de uma obsessão – entre um abastado playboy, filho da nata de Istambul, e uma humilde balconista, sua prima afastada. Kemal, jovem rico e bem-sucedido, oriundo de uma família tradicional turca, está prestes a se casar com Sibel, uma moça bonita, educada na França, e parece estar se encaminhando para o que poderíamos chamar de uma vida perfeita. No entanto, ao se deparar com Füsun, uma ‘prima’ doze anos mais nova, toda possibilidade de viver sem ela se torna literalmente impossível. A trama, que a princípio se assemelha a uma releitura banal de Romeu e Julieta, revela ser tudo, menos corriqueira – principalmente porque Kemal não é o homem de sonhos de ninguém. Muito pelo contrário: ele bem tenta manter as aparências e conciliar as duas vidas, casando-se com a mulher exemplar e fazendo da voluptuosa prima sua amante, e é só diante da sua impossibilidade que ele se curva – e que sua vida desmorona. Condenado a viver das memórias de uma promessa, o amante desafortunado encontra um alento ao se tornar o obsessivo colecionador dos objetos que um dia estiveram em contato com mulher amada: da xícara em que ela bebeu às bitucas dos cigarros que ela fumou.

Abarcando sobretudo os anos 1970 e 1980, o livro desvela, com uma maestria incomparável, os conflitos e o modo de pensar da sociedade turca, dividida entre a aparência, moderna e europeia, e a essência, tradicional e machista. Ao explorar as mazelas e incoerências da burguesia, assemelha-se não apenas a Flaubert e Balzac, mas faz pensar igualmente em alguns textos já clássicos da literatura brasileira, como Hilda Furacão, de Roberto Drummond. Mas a semelhança termina por aí. O que O museu da inocência tem de inovador é uma premissa narrativa única: a de contar uma história como um guia de museu, a partir dos objetos expostos numa vitrine.

E é com prazer que o leitor descobre, ao final da narrativa, que o “Museu da Inocência” não é um lugar imaginário: ele realmente existe, e não apenas pode ser visitado, mas o bilhete de entrada se encontra impresso nas últimas páginas do livro. É que, para escrever a sua história, Pamuk inspirou-se em objetos que ia encontrando por acaso, e acabou transformando a coleção daí advinda num museu em Istambul. Visitá-lo será certamente o motivo que faltava para (re)visitar essa cidade encantadora. Sob essa perspectiva, a declaração de amor de Kemal a Füsun pode ser entendida como uma declaração de amor à cidade, enquanto que o culto aos objetos se torna uma tentativa literal de resgatar a memória de uma época, bem como de homenagear as pessoas que a fizeram.

Dos objetos ao livro – do livro aos objetos. Eis o romance perfeito para todos aqueles que admiram uma bela história de amor. Mas eis também o romance perfeito para todos aqueles que não as podem suportar. Afinal, seja como for, O museu da inocência não é, nem nunca poderia ser, o livro errado para nenhum grande leitor.

Para quem pedir por mais, eis a página do Museu: www.masumiyetmuzesi.org

Título original: Masumiyet Müzesi

País: Turquia

Idioma original: turco

Ano de publicação: 2008

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-5918-57-1)

Edição portuguesa: Presença (ISBN 978-972-2343-55-8)

Número de páginas: 639 (edição portuguesa), 568 (edição brasileira)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s