Ensurdecedor, de Frances Itani

Itani_Deafening

A primeira resenha de 2015 transportar-nos-á dos confins do Canadá para as trincheiras da Primeira Guerra: trata-se de Ensurdecedor, romance histórico da canadense Frances Itani.

O livro foi lançado no Brasil em 2004, mas não obteve, em terras tupiniquins, o sucesso que merecia. Para escreve-lo, a autora inspirou-se na biografia de sua avó, que, como a protagonista, perdeu a audição ainda na infância. O livro é protagonizado pela bela Grania O’Neil, uma jovem surda, filha de imigrantes irlandeses radicados numa pequena cidade de Ontário no final do século XIX. Aos cinco anos, a pequena Grania perdeu a audição em consequência de uma forte febre. Sua mãe, que nunca se perdoou pela deficiência da filha, não é capaz de perceber o quanto é dura com ela. Mas, a despeito do inevitável isolamento causado pela surdez, Grania leva uma infância feliz, protegida pelo amor da avó que lhe ensina a ler e a falar, bem como pelos irmãos que a tratam como igual. Mais tarde, Grania é mandada para um internato especializado na educação de surdos-mudos, onde passa sete anos a aprimorar sua capacidade de leitura labial. Lá, conhece o auxiliar de enfermagem Jim, por quem se apaixona, mas que pouco depois do casamento é mandado para o campo de batalha durante a Primeira Guerra.

Do ponto de vista narrativo, Ensurdecedor faz pensar num tipo de literatura que já não se pratica, sendo parecido com clássicos de séculos anteriores, como por exemplo Jane Eyre, de Charlotte Brontë. A trama, a exemplo deste grande clássico, pode ser dividida em duas partes. A primeira, focada na infância de Grania, tem a menina como única protagonista. Já na segunda, o foco narrativo é dividido entre a heroína e seu marido, e “viaja” a cada capítulo do Canadá às trincheiras na Europa. Se, por um lado, a escolha da autora permite abarcar um maior conteúdo histórico, por outro, é perfeitamente possível que o leitor incomodado a acuse de falta de foco.

A fim de atestar a veracidade do pano de fundo, cada um dos capítulos de Ensurdecedor é iniciado por uma epígrafe retirada de documentos de época. Trata-se, em sua maioria, de trechos de artigos de jornais, mas também de relatos, cartas e poemas. No entanto, aquele que prestar atenção no conteúdo dessas epígrafes pode se decepcionar: embora, na primeira parte, muitas delas tratem da realidade das escolas para surdos e da brutalidade dos seus métodos educacionais, quase nenhum espaço é realmente dedicado a esse tema particularmente interessante, e, à exceção da saudade da família, os anos de formação de Grania são lembrados como um mundo cor-de-rosa.

Aqueles que não estiverem suficientemente familiarizados com o gênero poderão se incomodar com seu ritmo lento e suas longas descrições; no entanto, os verdadeiros fãs de romances históricos encontrarão em Ensurdecedor todos os elementos de um livro bem-sucedido. E, se ficarem com gostinho de quero-mais, ainda podem se deliciar com a sua continuação, Tell, focada na irmã de Grania e em seu marido, mutilado pela guerra.

Título original: Deafening

País: Canadá

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2003

Edição brasileira: Objetiva (ISBN 978-857-3025-63-7)

Número de páginas: 360

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