Verre Cassé, de Alain Mabanckou

Mabanckou_Verre

Para fechar o ano de 2014 com chave de ouro, mais um livro do qual você nunca teria ouvido falar se não fosse oquevcestalendo.wordpress.com – é ou não é? Trata-se de do romance Verre Cassé, do aclamando escritor congolês Alain Mabanckou.

O livro – que para variar quando se trata de autores africanos ainda não tem edição em português – conferiu ao autor uma série de prêmios literários, dentre os quais o Prix des Cinq Continents de la Francophonie, cujo objetivo é revelar o talento de autores do mundo todo que escrevem em língua francesa. Pois é: ao contrário das nossas, as livrarias francesas estão cheias de livros escritos por autores oriundos de suas antigas colônias.

Verre Cassé (em português: “copo partido”) é uma espécie de Karnak Café congolês, centrado na vida dos frequentadores de um bar chamado Le crédit a voyagé. No entanto, em vez de intelectuais e jovens politizados, o que temos é um botequim de quinta categoria frequentado por indigentes, alcoólatras e prostitutas. Narrado em primeira pessoa por um bêbado sexagenário, a quem incumbem a tarefa de traçar a biografia dos clientes do boteco, o livro apresenta um delicioso emaranhado de destinos tragicômicos, mostrando-nos a famigerada África central a partir de uma perspectiva inusitada e divertida. Usando uma linguagem ultramoderna que desconhece pontos finais e ultrapassa os limites de um Saramago, o narrador dá-nos a conhecer figuras memoráveis, engraçadas, absurdas, mas ao mesmo tempo perfeitamente verossímeis.

Nos termos de Aristóteles, o livro transita nas “partes baixas do corpo”, e surpreende – poder-se-ia mesmo dizer “choca” – pela crueza e falta de papas nas línguas. Por exemplo, na cena em que o narrador, surpreendido cagando em praça pública, é obrigado a recolher a porcaria, e o faz de muito bom grado – com as próprias mãos. É a festa da marginalidade, de gente que não tem nada a perder: gente que fede, que incomoda, mas que por isso mesmo se torna cada vez mais apaixonante.

E, quando falamos de uma linguagem que desconhece pontos finais, dizemo-lo literalmente: o leitor que se aventurar a descobrir este romance memorável terá diante de si um livro sem nenhum ponto final, mas que, estranhamente, torna-se logo no começo muito fácil de ser lido. A narrativa lembra um longo monólogo – o monólogo de um bêbado –, mas o talento do escritor faz com que o leitor não se perca, e não consiga parar de ler. Tudo isso é permeado por um discurso repleto de referências literárias e de citações ocultas que todo conhecedor da literatura universal terá enorme prazer em desvendar.

Verre Cassé foi considerado pelo The Guardian como um dos dez melhores romances africanos contemporâneos. Enquanto os leitores lusófonos continuam a não saber o que estão perdendo, o livro já foi traduzido para o inglês, o espanhol, o norueguês, o húngaro, o sueco, o hebreu, o italiano, e até mesmo o coreano. Será que não está na hora de abrirmos os olhos para a literatura universal, e exigirmos que o mercado editorial expanda as suas fronteiras para além da Inglaterra e dos Estados Unidos?

Dito isto, feliz Ano Novo!

Título original: Verre cassé

País: Congo

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2005

Edição em português: não há

Edição francesa: Éditions du Seuil (ISBN 978-202-0849-53-1)

Número de páginas: 248

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