La librería quemada, de Sergio Galarza

Galarza_Librería

Mesmo que não o admita, todo grande leitor já passou pela degradante experiência de levar um livro pela capa, pagar por ele mais do que devia, e terminar a leitura com vontade de dar um tiro na cabeça. Por mais que tentemos dizer que não, que não nos deixamos iludir pelas maléficas aparências de uma capa bem-feita, e que ademais nossa experiência literária nos permite fazer um julgamento acurado mal passamos os olhos pelas primeiras páginas de um volume, quem não se deixa levar de vez em quando pelo trabalho de um artista gráfico talentoso, ou pelo texto sedutor de um editor sanguessuga?

Pois a primeira coisa que se pode dizer acerca de La librería quemada, romance recém-saído do forno do escritor peruano Sergio Galarza, é justamente isso – que a editora não poupou esforços na capa e no texto de apresentação. Não que La librería quemada seja um livro de todo ruim. É verdade que se trata de mais um daqueles romances contemporâneos sem história nem clímax, que parecem ter saído de uma bebedeira ou do chicote da editora obrigando a produzir, como uma descarga de fluxo de consciência de um autor que não sabe o que quer. Ou seja, nem mais nem menos medíocre que tantos outros romances que nos enchem as livrarias, como por exemplo Reprodução, o mais recente trabalho de Bernardo Soares, que resenhamos em abril. O problema é que a orelha nos promete uma coisa completamente diferente: um romance inovador e pós-moderno, que pretende levar o conceito de Fahrenheit 451 ao extremo, e mostrar-nos uma distopia na qual atear fogo em livro é coisa do passado: a moda agora é… – e que me perdoem os leitores mais sensíveis pelo empréstimo da música do Axé Bahia – … é livreiro queimado.

Mas, então, onde foi parar o fogo? Pois o que o leitor vai encontrar é bem diferente: as misérias do aborrecido cotidiano dos funcionários de uma livraria sem charme no centro de Madrid. Homens e mulheres que acordam cedo, que passam horas de pé aguentando clientes mal-educados tratando-nos como autômatos, odiando a vida, sendo humilhados e jurando vingança, sonhos e juventude esmagados debaixo de uma pilha de livros mal-arranjada… mas morrendo de medo de perder o emprego em tempos de crise econômica.

Verdade seja dita: o livro de Galarza até tem os seus momentos. É certo que suas personagens não são nada cativantes, mas conhece-las é como flanar feito um voyeur pelas ruas e descobrir os detalhes da vida de um monte de gente, medíocre e desinteressante como qualquer um de nós, ou como ver um daqueles programas de reality show na TV: por mais que saibamos que não ganhamos nada com isso, às vezes a gente se pega contando os minutos para o próximo capítulo.

Quem nunca comprou um livro pela capa que atire a primeira pedra.

Título original: La librería quemada

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição espanhola: Candaya (ISBN 978-841-5934-09-7)

Edição brasileira: não há

Número de páginas: 208

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