O jantar, de Herman Koch

Koch_Jantar

Dois irmãos e suas respectivas mulheres encontram-se num restaurante de luxo de uma cidade tranquila da Holanda. O encontro, que ao primeiro olhar parecia não passar de uma confraternização corriqueira, revela-se aos poucos como uma reunião de emergência para decidir que atitude tomar acerca de um grave crime cometido pelos filhos adolescentes de ambos. Eis o ponto de partida de O jantar, do escritor e ator holandês Herman Koch – talvez um dos romances mais bem-sucedidos dos últimos tempos.

O jantar é um daqueles raros livros que conseguem prender o leitor desde a primeira página. A trama, construída em moldes aristotélicos, apresenta uma unidade perfeita de tempo, espaço e ação: à exceção dos flashbacks, tudo se passa num afetado restaurante cinco estrelas durante o breve intervalo de uma refeição em família. A voz narrativa é dada a Paul, um dos irmãos, antigo professor de história aposentado por invalidez, que demonstra grande rivalidade para com o irmão mais velho, verdadeiro “Sr. Perfeito”, futuro candidato à presidência do país.

Aos pouco, a medida em que detalhes da vida privada de suas personagens vão sendo revelados, aquela que parecia ser uma inocente noitada em família marcada por uma competitividade ‘normal’ entre irmãos ganha proporções inicialmente inimagináveis. Graças a uma estrutura impecável e a um desenvolvimento narrativo que leva ao clímax sem deixar a peteca cair, o narrador faz do leitor a sua marionete, retirando-o de sua zona de conforto e o convidando a vislumbrar as camadas mais complexas e profundas da psique humana. Condenado a se deixar conduzir por esse narrador nem um pouco imparcial, o leitor vai ganhando a impressão de que se enganou de filme, e o que tinha começado como uma comédia familiar irônica e deliciosa com as cores de O deus da carnificina (Roman Polanski, 2011) se transforma gradativamente num thriller sombrio e indigesto aos moldes de Precisamos falar sobre o Kevin (Lynne Ramsay, 2011). Afinal, até onde uma pessoa honesta, um assim chamado ‘homem de bem’ é capaz de chegar para proteger aqueles que ama? E quantas monstruosidades não se escondem por detrás do inocente retrato de uma família feliz?

Apesar do seu inegável mérito literário, não deixa de ser surpreendente que o livro de Herman Koch tenha se tornado um best seller internacional traduzido para mais de 20 idiomas: o leitor médio de hoje em dia tem tendência a preferir personagens carismáticas, histórias edificantes, dessas que fazem chorar no final e dão-nos a impressão de nos termos tornado pessoas melhores. Pois se é disso que está a procura, melhor procurar em outra parte: Paul Lohman tem tanto de simpático quanto o jantar que lhe está a ser servido tem de apetitoso. Mas se, pelo contrário, estiver disposto a encarar o desafio de um livro incômodo, pouco convencional e sem sombra de dúvidas eletrizante, saiba que encontrará em O jantar uma grande leitura do qual não irá se esquecer tão cedo – nem que o queira.

Título original: Het diner

País: Holanda

Idioma original: holandês

Ano de publicação: 2009

Edição brasileira: Intrínseca (ISBN 978-858-0574-18-0)

Número de páginas: 256

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