Brief in die Auberginenrepublik, de Abbas Khider

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Em 1999, um jovem em exílio escreve uma carta de amor para a mulher da sua vida. Eis o ponto de partida do livro de Abbas Khider, escritor iraquiano radicado na Alemanha. “Carta à República da Berinjela”, seu terceiro romance, nos transporta a uma época não muito distante, na qual a internet, para a maior parte do globo, ainda era coisa de outro planeta, e Facebook, Twitter e Skype nem sequer haviam sido sonhados. Como se comunicar antes da chamada “era da comunicação”, sobretudo se as vias telefônicas e postais estivessem vigiadas? Como manter contato com a pessoa amada, principalmente se esse mesmo contato pudesse pôr em risco a vida de seu destinatário?

Narrado em primeira pessoa segundo perspectivas distintas, “Carta à República da Berinjela” pode ser considerado uma espécie de road book (termo derivado de road movie, gênero de filme que se desenrola durante uma viagem). Nele, acompanhamos a complicada trajetória de uma carta de amor das mãos de seu remetente, um iraquiano muçulmano exilado na Líbia, até sua destinatária, uma jovem cristã da periferia de Bagdá. Forçado a abandonar a terra natal por participar de um clube do livro considerado subversivo, o remetente da carta que dá título ao romance perde o contato com sua namorada, que ele acredita ainda viver no subúrbio de Saddam City. Ao ouvir falar de um correio clandestino ao “país das berinjelas”, o jovem apaixonado não pensa duas vezes antes de trocar todas as suas economias pelo caro e pouco fiável serviço de entrega. Enquanto a carta vai passando de mão em mão, vamos conhecendo paisagens distintas porém muito parecidas, personagens diferentes envolvidas nos mesmos dilemas, e dando uma espiadela na situação política de vários países do mundo árabe: a Líbia de Khadafi, o Egito de Mubarak, a Síria de Hafiz al-Assad, a Jordânia de Abdullah II bin Hussein e, é claro, o Iraque de Saddam Hussein.

Como sua personagem, Abbas Khider foi condenado e preso por motivos políticos, e imigrou há pouco mais de uma década para a Alemanha como asilado. Se, ao chegar, não falava nem uma palavra de alemão, não deixa de ser admirável como, em tão pouco tempo, conseguiu não apenas dominar essa língua estranha e difícil, mas também construir nela sua obra literária. Narrado numa prosa limpa, lacônica e certeira, que deixa transparecer agradavelmente o “estrangeirismo” do autor, “Carta à República da Berinjela” é um romance divertido e fácil de ler, que denuncia com humor e ironia a brutalidade e a incoerência das ditaduras dos países árabes, bem como a lei do mais forte e o sistema de corrupção por elas gerado. De modo geral, o bom humor e a leveza narrativa predominam, mas, talvez por dar voz a alguém outrora silenciado pelo regime de Saddam, o livro deixa claro que sua prioridade é passar uma mensagem política. Mensagem esta sem dúvida importante, mas que talvez não precisasse ser trabalhada de maneira tão óbvia: a bom entendedor, meia palavra teria bastado.

Nos últimos anos, temos tido vários exemplos do poder trazido ao povo por essa arma poderosa que é a internet, capaz de reunir multidões, semear a revolta e derrubar ditadores. Foi este o caso durante a chamada “Primavera Árabe”, para a qual as redes sociais exerceram um papel fundamental, informando, mobilizando e unindo milhões de pessoas ao redor do mundo. Nesse contexto, a mensagem de “República da Berinjela” não nos parece anacrônica: muito pelo contrário, ela nos lembra a importância de poder se comunicar.

Infelizmente, o livro não tem previsão de ser traduzido para a língua de Camões.

Título original: Brief in die Auberginenrepublik

País: Iraque

Idioma original: alemão

Ano de publicação: 2013

Edição alemã: (ISBN 978-389-4017-70-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 160

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