La casa de los conejos, de Laura Alcoba

Alcoba_Conejos

Quando pensamos nos nossos vizinhos do sul, é impossível não nos referirmos à rivalidade no futebol. Enquanto os brasileiros se gabam de Pelé e Ronaldinho, os argentinos revidam com Maradona, e quando mencionamos com orgulho as cinco estrelas na camisa, nossos eternos adversários ironizam a derrota na última Copa do Mundo. Frivolidades à parte, existe um campo no qual a Argentina parece vencer o Brasil a muito mais que 7×1: no questionamento das atrocidades cometidas durante a ditadura e na busca pela verdade.

La casa de los conejos retoma um gênero de grande importância na América Latina do século XX, porém muito pouco explorado em terras tupiniquins: a literatura de memória ou de testemunho. À exceção de exemplos esparsos, como Fernando Gabeira, e, mais recentemente, Edney Silvestre, a Ditadura Militar de 1964-1985, embora fortemente presente no cinema nacional, raramente tem obtido espaço na literatura de ficção. Mais preocupada em reproduzir fórmulas gastas e imitar modelos norte-americanos, a literatura brasileira, refletindo a sociedade, cala, enquanto a de nossos vizinhos hispânicos não tem medo de falar – pelo menos a julgar pela nova leva de autores argentinos, como Martín Kohan, Félix Bruzzone e Laura Alcoba.

La casa de los conejos é narrado a partir da perspectiva de Laura, nove anos, filha de militantes de esquerda envolvidos na organização Montoneros, oposta ao brutal regime militar da época. A trama, que se desenrola no ano de 1976, é focada nos meses em que a menina, acompanhando a mãe foragida, compartilhou o teto com outros nomes da guerrilha, vivendo numa célula onde funcionava a imprensa montonera: a chamada “casa dos coelhos”. Romance modesto de pouco mais de cem páginas, o livro impressiona ao reconstruir o universo da resistência e narrar o cotidiano dos clandestinos políticos sob um ponto de vista tão peculiar. Incapaz de compreender as dimensões do embate que testemunha, a menina arrancada dos confortos da infância compreende no entanto que não faz parte de um jogo de crianças. Laura, que vê serem-lhe atribuídas responsabilidades de adulta, não é poupada do desgaste emocional nem do pavor de serem descobertos, presos ou exterminados. Na guerra, não se permitem fraquezas nem se atribuem imunidades.

Recomenda-se, ao longo da leitura, que não nos esqueçamos do seu fundo autobiográfico, e que, ao chegarmos ao final, dediquemo-nos às pessoas nela retratadas: não é sempre que o leitor pode encontrar tantos registros e fotografias das personagens sobre as quais esteve a ler. Da mesma forma, uma vez que a narrativa se restringe ao ponto de vista da menina, a internet pode servir de epílogo e dar a conhecer o verdadeiro “final da história”.

Mas toda reprodução não deixa de ser recriação. Assim, é preciso assinalar que, do ponto de vista literário, o livro de Alcoba deixa algo a desejar. É de se imaginar que a intenção da autora tenha sido ser ao máximo fiel às lembranças de infância, e que ela não tenha querido preencher os inevitáveis lapsos de memória com interpretações e juízos posteriores. No entanto, é inegável que La casa de los conejos deixa a sensação de que poderia ter ido mais longe, entrado mais em detalhe, e desenvolvido melhor algumas personagens centrais que se vão perdendo com o tempo, como, por exemplo, a mãe. Com um tema deveras apaixonante e uma qualidade narrativa bastante aguçada, o livro teria merecido ser, pelo menos, cem páginas mais longo.

Escrito originariamente em francês, La casa de los conejos já foi traduzido para diversos idiomas, dentre os quais o espanhol, o inglês, o alemão, e até mesmo o sérvio. No entanto, o português ainda não faz parte dessa lista. Vergonhosamente para nós, permanecemos ainda, também no que compete ao alcance do mercado editorial, a anos-luz de distância de um dos nossos vizinhos mais próximos.

Título original: Manèges

País: Argentina

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2007

Edição espanhola: La casa de los conejos – Edhasa (ISBN 978-843-5010-24-5)

Edição em português: não há

Número de páginas: 136 (edição espanhola)

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5 thoughts on “La casa de los conejos, de Laura Alcoba

    • Darlene, o livro vale mesmo a pena ser lido! Talvez com a ajudinha de um dicionário? Eu li a edição espanhola e acho que pode não ser difícil, mesmo para ajudar a aprender mais espanhol. Bora tentar?

      É uma pena que as nossas prateleiras estejam repletas de traduções de livros americanos, e que um livro tão atual e relevante, culturalmente tão próximo do Brasil, não chegue até nós. Acredito que poderia haver um equilíbrio no mercado editorial, pois afinal, para a grande maioria dos leitores, que não falam outras línguas, acabam sendo eles quem decidem o que nós vamos ou não vamos ler.

      Mas pode deixar que ficarei de olho: se pintar uma tradução, postarei aqui! 😉

      • Tem razão, infelizmente o mercado acaba decidindo por nós o que será ou não lido.
        Tentarei com o dicionário de espanhol, o tradutor google e com o conhecimento que já possuo do idioma, será realmente uma oportunidade de aprender mais!

        Bjs 🙂

      • Boa! Também foi assim que eu li o meu primeiro livro em espanhol – e em outras línguas também 😀
        Depois, se tiver um tempinho, conta pra gente o que achou, e como foi o processo de leitura.
        Beijos!

  1. Pingback: In the Shadow of the Banyan, de Vaddey Ratner | oquevcestalendo

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