Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

Márquez_Putas

Em outubro de 2004, o mago latino-americano das letras quebrou o silêncio de quase uma década publicando aquele que seria seu último texto de ficção. Memórias de minhas putas tristes encerra a prolífera carreira literária do já saudoso colombiano Gabriel García Márquez, laureado do Prêmio Nobel da Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, e morto em abril passado aos 87 anos.

A trama de Memória de minhas putas tristes foi inspirada no romance A casa das belas adormecidas do japonês Yasunari Kawabata, Prêmio Nobel da Literatura de 1968. Narrado em primeira pessoa sob a perspectiva do protagonista, o texto se abre como uma espécie de memoir das não poucas aventuras sexuais de um carismático nonagenário nada convencional, que, depois de muitos erros e enganos, descobre o verdadeiro sentido da palavra amor nos últimos anos de existência. Na noite de seus noventa anos, o velhote, jornalista de longa data, famoso por seu estilo ultrapassado e por seus textos démodés, decide contatar a cafetina Rosa Cabarcas, antiga conhecida sua, e pedir-lhe que lhe arranje uma virgem – último desvario sexual de uma vida de incansável depravado. Ao chegar à alcova onde o espera a derradeira presa, o homem encontra a menina adormecida, e, comovido com seu sono de inocente, é incapaz de acorda-la para saciar seu desejo. Inicialmente perturbado e temendo por em causa sua fama de garanhão, resolve tentar novamente, e mais uma vez não consegue acordar a menina. Assim, ao longo dos meses, este homem peculiar vai se deixando embalar pelo sono da rapariga, e a vivenciar uma série de sentimentos ainda desconhecidos. Pouco a pouco, sua pacata existência de ancião solitário passa a girar em torno das noites com a menina a quem recusa acordar, e cujo nome verdadeiro não quer conhecer, preferindo chamá-la Delgadina tal como a heroína de um conto de fadas. É que, encontrando a amada sempre adormecida, e a dissociando de sua existência diurna, ele pode pintá-la como a mulher de seus sonhos, não correndo o risco de que suas qualidades imaginadas se desfaçam em pedaços diante dos inevitáveis defeitos que a realidade revelaria. Inspirado por uma torrente de sentimentos que o ultrapassam, ele passa a publicar, em sua coluna semanal, efusivas cartas de amor que fazem derreter os corações dos leitores. Contudo, antes que possa finalmente desfrutar a calmaria de um amor são e lúcido, liberto de idealizações e da pequenez do próprio ego, ele terá que descer aos infernos de um confronto consigo mesmo.

O texto, que recebeu uma versão cinematográfica em 2012, não deixa de levantar polêmica ao tratar da exploração sexual de menores e da pedofilia. À primeira vista, o leitor mais cético pode até se perguntar como é possível se deixar conquistar por um velho tarado, apaixonado por uma adolescente de classe operária, forçada à prostituição para sustentar os irmãos caçulas. Mas hesitar diante de tal fachada seria pôr em questão a inigualável sensibilidade de García Márquez, que escreveu sua derradeira novela como uma espécie de fábula, cuja moral pode ser resumida com as seguintes palavras: o amor nunca chega tarde. Por fim, a linguagem poética e a cadência de sonho preponderam, e fazem pensar em Fernando Pessoa no melhor da sua forma: “E vê que ele mesmo era a Princesa que dormia.”

Título original: Memoria de mis putas tristes

País: Colômbia

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2004

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1072-65-8)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2028-02-8)

Número de páginas: 132 (edição brasileira), 125 (edição portuguesa)

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