O jogo de Ripper, de Isabel Allende

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Isabel Allende, talvez o nome feminino mais conhecido do cenário literário latino-americano, é uma verdadeira mulher de mil faces. Não é a primeira vez que a escritora, que se consagrou com suas epopeias familiares que exploravam a contribuição da mulher na fundação da identidade latina, decide andar por terrenos desconhecidos: muitos leitores desconhecem, por exemplo, seus romances de aventura infanto-juvenil. Em seu mais recente trabalho, a filha de Salvador Allende inova mais uma vez, investindo num gênero deveras inusitado: o romance policial.

O jogo de Ripper (referência direta a Jack o Estripador – em inglês, Jack the Ripper) narra a história da caçada a um serial-killer por um grupo de adolescentes jogadores de RPG. Amanda, a protagonista, é uma menina estranha e superdotada que dedica boa parte do seu tempo a um jogo de detetives com um grupo de amigos virtuais dos quatro cantos do mundo – dentre os quais o próprio avô. Cansada de resolver crimes de ficção, a mestra de jogos propõe tentarem desvendar uma série de assassinatos da vida real. Graças ao fato de que seu pai é o chefe da divisão local de homicídios, a menina tem acesso a informações privilegiadas, que partilha com os parceiros por videoconferência via skype. Quando ninguém menos que sua própria mãe torna-se alvo do psicopata, a menina pode contar não apenas com a perspicácia dos amigos e com os arquivos da polícia, mas também com as informações de um detetive particular, com os serviços de um professor de inteligência artificial, e com a ação de um antigo soldado da divisão que abateu Osama Bin-Laden e seu cão treinado pelo exército americano.

O livro é um híbrido indefinível, a começar pelo público-alvo visado: é duro demais para poder ser infanto-juvenil, porém demasiado ingênuo para agradar a leitores adultos. O leitor habituado a romances policiais ficará decepcionado com a lentidão da ação, que se perde em descrições intermináveis e nem sempre relevantes, bem como com o mistério demasiado fácil de desvendar, com a tipificação de personagens que ultrapassam os limites do credível, e com o fato de que todos os elementos necessários à solução do problema sejam dados de bandeja.

Afinal, o que restou de Isabel Allende no seu mais novo romance, afora a fluência narrativa e o desenvolvimento das personagens? Quem estava acostumado com os trabalhos anteriores da autora terá, sem dúvida, grande dificuldade em reconhece-la em O jogo de Ripper. A primeira causa de estranhamento vem logo da ambientação tempo-espacial: a trama se passa na cidade de São Francisco no ano de 2012. Ademais, em vez das mulheres fortes e emblemáticas de A casa dos espíritos, Retrato a sépia e Filha da Fortuna, as personagens principais de Ripper são uma norte-americana destrambelhada com tendência a vítima e sua filha infantilóide. As poucas personagens latinas são tão estereotipadas que mal parecem ter saído da pluma de Allende: uma abuela mexicana ultracatólica, um chefe de polícia de bigodes cujo pai fora mariachi, uma doméstica guatemalteca, um brasileiro sensual sob constante efeito de entorpecentes e um uruguaio viciado em erva-mate. Com tudo isso, e mantendo em mente o inegável talento da autora, fica difícil dizer se Ripper é um thriller falhado, um hommage, ou se a intenção da autora era justamente fazer uma sátira do gênero.

Apesar dos pontos fracos, o leitor que optar por dar uma chance a O jogo de Ripper terá diante de si um romance de entretenimento simpático e uma leitura agradável, sobretudo à medida que se aproxima do fim, que apesar da previsibilidade mantém firme o suspense e reserva não poucas surpresas até a última linha. A cena final, por exemplo, conseguirá arrancar daquele que se deixar embalar um suspiro de suspense dignos não de um Stieg Larsson, mas talvez de uma final de temporada de Dexter.

Em última análise, O jogo de Ripper é um livro corajoso, que mostra que a autora de 71 anos não apenas se mantém aberta às tendências da juventude contemporânea, mas também que ela continua a não ter medo de se reinventar.

Título original: El juego de Ripper

País: Chile

Idioma original: espanhol

Ano de publicação: 2014

Edição brasileira: Bertrand Brasil (ISBN 978-852-8617-57-3)

Edição portuguesa: Porto Editora (ISBN 978-972-0044-98-3)

Número de páginas: 490 (edição brasileira), 400 (edição portuguesa)

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