A idade do ferro, de J. M. Coetzee

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J. M. Coetzee não é um autor conhecido por finais felizes. O aclamado escritor sul-africano, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura de 2003, é um grande mestre em colocar o dedo na ferida. Dono de uma escrita única, marcada pela capacidade de retratar o incômodo com crueza e refinamento, Coetzee impressiona ao criar personagens tão complexas que, a medida em que o leitor se envolve com elas, quase se tornam reais.

A idade do ferro é um romance curto, porém grandioso. O livro consiste numa longa carta que a protagonista, uma antiga professora universitária de letras clássicas, vai escrevendo a sua única filha ao descobrir que se encontra em estado terminal de câncer. Mrs. Curren, a personagem principal, sempre gozou uma existência tranquila, alheia aos graves problemas sociais ao seu redor, até que a revelação da doença incurável a faz abrir os olhos para um mundo por muito tempo ignorado. Enquanto discorria sobre as guerras e os conflitos da Grécia Antiga e do Império Romano a estudantes brancos da Cidade do Cabo, não se dava conta de que desconhecia as tragédias do próprio tempo. Tragédias essas que sua interlocutora, exilada por escolha nos Estados Unidos há mais de uma década, não fora capaz de suportar. A sua existência confortável e monástica de viúva, contrasta a vida dura de Florence, a empregada negra, para quem a família e o senso de comunidade estão em primeiro plano. Ao se encontrar à beira da morte, Mrs. Curren é obrigada a conviver com o insuportável peso de uma culpa histórica, exteriorizada pelo ato purgatório da escrita, até que um confidente improvável – um mendigo bêbado e imundo que resolve se instalar na sua propriedade – acaba servindo de ponte entre dois mundos opostos. Misterioso e indecifrável, o indigente, alcunhado de Mr. V, é uma espécie de anjo da morte, e se torna pouco a pouco um misto de amigo, filho e amante, preenchendo ao mesmo tempo todas as lacunas de uma vida de omissão.

Escrito e publicado nos últimos anos do apartheid, o romance utiliza o corpo doente da protagonista como uma espécie de alegoria para a decadência do Estado social sul-africano, e parte de um tema universal – a iminência da morte –, para não apenas refletir sobre as mazelas sociais do seu tempo, como também para fazer uma análise profunda da natureza humana. Enquanto observa própria a degradação física e mental, a narradora descreve as transformações do mundo ao seu redor, e descobre pouco a pouco uma realidade da qual sempre fora poupada, ou pela qual nunca se interessou. Somente ao se encontrar sozinha e debilitada é que ela se dá conta de que passara a vida num mundo de ilusões, e que a agressividade e a violência que agora culminam ao seu redor nada mais são que o resultado de um longo e infame processo do qual é culpada pela indiferença.

Não deixa de impressionar o modo como, em pouco menos de 200 páginas, Coetzee é capaz de dar voz a questões tão distintas, mesclando objetividade e subjetividade numa narrativa intimista que intercala fluxo de consciência e observação detalhada da realidade. Embora a interpolação incessante entre a observação e o devaneio, característica do diário e da literatura epistolar, possam fazer o leitor por vezes se perder, A idade do ferro é uma leitura essencial, por conseguir abordar um tópico tão complexo e incômodo com tamanha leveza e lucidez.

Título original: Age of Iron

País: África do Sul

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1990

Edição brasileira: Siciliano (ISBN 852-670-3811)

Edição portuguesa: Dom Quixote (ISBN 978-972-2012-24-9)

Número de páginas: 179 (edição brasileira), 184 (edição portuguesa)

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