O povo eterno não tem medo, de Shani Boianjiu

Boianjiu_Afraid

Quando o mundo resolve esconder-se por trás do silêncio, a literatura de ficção é muitas vezes o único veículo capaz de dar voz a realidades reprimidas, de revelar verdades incômodas, de exteriorizar pesadelos. Ao abrir a caixa de pandora e romper o silêncio que envolve a vida das jovens israelenses do século XXI, o romance de estreia de Shani Boianjiu, considerado um dos melhores livros de 2012, faz justamente isso.

O povo eterno não tem medo é uma espécie de mosaico composto de cacos de vidros de tamanhos, formas e cores diferentes. A cada capítulo, o leitor tem diante de si uma nova perspectiva, um novo estilo narrativo, um novo estilhaço de realidade. No eixo central, temos a história de três israelitas – Yael, Avishag e Lea –, amigas de infância de personalidades distintas, cujo destino implacável e comum torna cada vez mais parecidas através do sofrimento. Conhecemos as meninas ainda na infância, num vilarejo poeirento e sem história na fronteira com o Líbano, e acompanhamos suas trajetórias do final da adolescência à passagem pelo exército, e depois até meados dos vinte anos. Para além, conhecemos um pouco do universo das pessoas ao seu redor, como pais e colegas, mas também refugiados, escravas sexuais e trabalhadores palestinos. Assim, e sobretudo graças à constante mudança de foco narrativo, o livro de Boianjiu oferece ao leitor um amplo panorama não somente da juventude, mas também de todas as camadas humanas que compõem Israel. E talvez um dos maiores méritos do romance resida justamente aí – na capacidade da autora de dar voz a extremos opostos, sem tomar partido ou se identificar com quem quer que seja, sem nomear heróis ou vilões, ignorando deliberadamente diferenças étnicas e religiosas em prol do que há de comum a todos os homens. Em todo caso, não deixa de impressionar o leitor como essas vidas tão inimaginavelmente distintas podem ao mesmo tempo ser tão parecidas com as de cada um de nós.

A vida das soldadas israelenses pode ser considerada um tema tabu. Com exceção de esporádicos vídeos exuberantes e fotos sensuais tornados virais graças à internet, pouco se ouve falar sobre a realidade dessas meninas. No país em guerra praticamente desde a Declaração de Independência em 1948, o alistamento é obrigatório tanto para meninos como para meninas, e a passagem pelo exército é obrigatória por dois anos. Boa parte das forças armadas de Israel é constituída por adolescentes recém-saídos da escola, cujas vidas são colocadas em stand-by ao serem designados, depois de um curto treinamento de choque, para defender o país. Quando têm sorte, são postos diante de monitores de vigilância e telefones vermelhos que nunca tocarão, e têm de lutar contra a monotonia a fim de não enlouquecerem. Quando não têm, são mandados para postos de fronteira e esquadrões anti-terroristas, nos quais ficam à mercê de homens-bomba e de agressões de toda espécie.

Por meio da história das três protagonistas, o romance revela o contraste entre as granadas e metralhadoras e as mãos pequenas daquelas que as disparam, forçadas a lutar por uma causa pela qual nem sequer se interessam. Entre momentos de excitação e de tédio, são obrigadas a se desumanizar para sobreviver num ambiente que não tolera fraquezas, e vão deixando de ser indivíduos dotados de sonhos, desejos e valores, para se tornarem autômatos auto-destrutivos desprovidos de essência, capazes de abrir o próprio peito a golpes de faca num esforço desesperado para voltarem a sentir. Com isso, o livro nos revela um povo destroçado, cansado de uma luta sem fim, e condena com voz abafada não apenas o Estado que envia à morte aqueles que mais deveria proteger, como também a sociedade, que peca pela omissão e pela aceitação do absurdo.

Mas não era intenção de Shani Boianjiu escrever apenas um livro sobre mulheres-soldado, como também não é sob essa perspectiva unilateral que o romance deve ser lido. O que o trabalho da jovem escritora de pouco mais de 25 anos, ela mesma ex-soldada do exército israelense, pretende mostrar é muito maior: o que significa ser mulher e jovem no Israel de hoje em dia.

Por vezes, temos a impressão de que alguns livros simplesmente precisavam ser escritos. O povo eterno não tem medo é sem dúvida um desses livros.

Título original: The People of Forever are not Afraid

País: Israel

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 2012

Edição brasileira: Alfaguara (ISBN 978-857-9622-17-5)

Edição portuguesa: Objectiva (ISBN 978-989-6721-88-6)

Número de páginas: 280 (edição brasileira), 368 (edição portuguesa)

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2 thoughts on “O povo eterno não tem medo, de Shani Boianjiu

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