O cemitério de Praga, de Umberto Eco

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Umberto Eco é um autor que dispensa apresentações. Mestre do romance histórico de ficção, sua obra é caracterizada por tramas rocambolescas e personagens marcantes, pelo entrelaçamento entre ficção e realidade, pela narrativa daquilo que poderia ter acontecido, assim como por uma declarada paixão pelo texto. Não é de agora que o trabalho do autor se concentra em trazer à tona um grande clássico perdido: enquanto seu maior sucesso O nome da rosa focava na descoberta do suposto manuscrito perdido da Comédia de Aristoteles, o mais recente Baudolino tomava como tema a pretensa carta do legendário Prestes João ao imperador Manuel Comneno. Em seu mais recente trabalho, o italiano de 82 anos, diretor da Escola Superior de Ciências Humanas da Universidade de Bolonha, remete o leitor a um passado mais recente – a segunda metade do século XIX -, e explora os bastidores da concepção de um dos mais infames documentos anti-semitas da história: Os Protocolos dos Sábios de Sião.

Simonino Simonini, o protagonista, é um anti-herói com problemas de memória e de dupla personalidade, dividido entre o que julga ser si mesmo e a persona de um certo Abade Dalla Piccola. Talentoso falsificador e mestre nos disfarces, é um homem desprezível e sem escrúpulos, movido apenas pela ganância e pelo próprio estômago, que trabalha como uma espécie de espião mercenário, sempre disposto a deixar de lado suas próprias convicções a fim de servir aquele que pagar mais. Privilegiado pelo anonimato, vai construindo e desconstruindo a história segundo as missões que recebe, estando por trás de alguns dos acontecimentos mais marcantes da história do século XIX. Embora despreze as mulheres como seres inferiores, tenha ódio aos jesuítas, socialistas e a todo tipo de estrangeiro – inclusive ao próprio italiano -, sua maior paixão é o anti-semitismo. Tendo herdado do avô o ódio aos judeus, considera destruir o judaísmo sua maior missão, e faz uso da palavra – assim como do seu grande talento para a falsificação -, para construir um relato infame, que associa a religião judaica ao satanismo e à maçonaria.

A trama de O cemitério de Praga é contada por três narradores, que se desdobram em dois níveis narrativos diferentes: o relato em primeira pessoa num diário, meio de comunicação entre as duas personas de Simonini, e o narrador onisciente em terceira pessoa, que se permite algumas intromissões, complementos e tomadas de partido. A partir desse entrelaçamento de vozes e versões, constrói-se uma narrativa interessante e divertida, repleta de flashbacks e excertos culinários, e enriquecida por materiais iconográficos originais, que visam provar ao leitor a verdade dos fatos, por mais absurda que a narrativa às vezes possa parecer.

O único problema é que O cemitério de Praga peca pelo excesso. O livro oferece um vasto panorama do contexto histórico italiano e francês na segunda metade do século XIX, indo muito além do seu tema primeiro. Assim, enquanto o leitor acompanha as desaventuras de Simonini em meio à Itália de Garibaldi, que se estendem por mais de um terço do livro, ele não deixa de se perguntar onde foram parar os judeus: a primeira parte da vida do protagonista poderia ter sido um livro à parte. Se os diversos excursos históricos, que compõem mais da metade da narrativa, deixam entrever as dimensões do imensurável conhecimento histórico de Umberto Eco, o leitor que não conhecer bem a história européia do século XIX perder-se-á em meio aos nomes e fatos, e não deixará de se perguntar se um excesso de zelo tão grande não chega a ser exagero. Também é possível ressaltar a ausência de mulheres, à exceção de uma. Por um lado, é verdade que a história política é feita de homens; por outro, se Umberto Eco utiliza a macro-história como ponto de partida para um romance de ficção, seria necessária tamanha misoginia? No posfácio, o autor coloca à disposição um quadro que relaciona os acontecimentos narrados aos fatos históricos, e diz que o “leitor competente” poderia desfrutar a história sem a necessidade do mesmo. Seria mesmo o caso da competência do leitor, ou do escritor? Em suma, O cemitério de Praga é um romance interessante, por vezes divertido, e sem dúvidas bastante informativo, mas não reflete Umberto Eco em sua melhor forma.

Título original: Il cimitero di Praga

País: Itália

Idioma original: italiano

Ano de publicação: 2010

Edição portuguesa: Gradiva (ISBN 978-989-6164-08-9)

Edição brasileira: Record (ISBN 978-850-1092-84-7)

Número de páginas: 572 (edição portuguesa), 480 (edição brasileira)

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2 thoughts on “O cemitério de Praga, de Umberto Eco

  1. Boa noite. (horario de Brasilia)

    Foi a primeira resenha sua que li, comecei pela ordem que me apreceu ao entrar no blog. Ao ler a resenha fico na dúvida se tenho ou não tenho vontade de ler. Isto porque como você descreve me parece uma obra arrastada e com informações de certa forma desnecessária, mas por outro lado sua resenha foi tão boa que me deixa com vontade de ler, você descreve o que me parece ser uma livro bem interssante, claro que não do tipo que se devora em uma noite, mas com calma. Gostei também pois com a resenha conheci um pouco do autor e da caracteristicas de suas obras. E tem mais, posso não começar a ler Umberto Eco por O Cemitério de Praga, mas as chances de começar por O Nome da Rosa são grandes.

    Beijo e Parabéns pela resenha.

    Tereza Antunes

    • Bom dia!

      Obrigada pelo comentário 🙂

      Também fico bastante dividida sobre se recomendaria ou não O cemitério de Praga. Confesso que sofri um pouco para lê-lo, o tom me lembrava aquele de manuais de história da escola, e eu não parava de me perder nos nomes e datas. O nome da rosa e Baudolino (pessoalmente, meu preferido) também têm momentos cansativos, mas esses eu recomendaria sem hesitar. Mas talvez seja apenas meu julgamento pessoal, já que a Idade Média me interessa muito mais que o século XIX (a segunda parte de Baudolino, por exemplo, narra uma viagem ao Oriente cheio de povos monstruosos, meu tema de tese). Se você resolver ler, ficarei esperando a sua opinião 😉

      Beijo enorme, e obrigada pela leitura da resenha!

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