O mundo se despedaça, de Chinua Achebe

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A obra-prima de Chinua Achebe, escritor nigeriano aclamado mundialmente, retorna ao Brasil com mais de sessenta anos de atraso.* Tal anacronismo somente se justifica pelo triste fato de que a literatura africana, embora tão acessível do ponto de vista linguístico, dificilmente obtém a visibilidade que merece.

Okonkwo é um homem como outro qualquer. Desde cedo, trabalhou para fugir à miséria e deixar aos filhos um legado maior que aquele que seu pai, um homem fraco e endividado, lhe deixara. Na juventude, participou em várias batalhas em nome de seu povo, e usou a força física para se destacar em torneios de luta. Arou a terra com o suor do rosto, e construiu aos poucos um pequeno império do qual se orgulhava. Por sorte, cresceu numa sociedade na qual a hereditariedade não determina o sucesso de um homem, mas sim a coragem e a força do próprio trabalho. Aos poucos, adquiriu uma posição no clã, sendo respeitado como um homem justo, honesto e trabalhador. Seu único defeito é, talvez, o excesso de dureza: avesso à preguiça e à fraqueza, trata os membros da família a braço firme, e se impede de demonstrar qualquer tipo de sentimento, à exceção da ira. Apesar dos percalços, segue uma vida tranquila, fiel aos seus princípios e às tradições dos seus antepassados, até que uma fatalidade dá início à destruição do seu mundo.

Tematicamente, o romance pode ser dividido em duas partes. A primeira, que consiste em mais da metade da narrativa, acompanha o cotidiano de Okonkwo, antigo guerreiro e proprietário de terras de uma tribo igbo, grupo étnico do sudeste da Nigéria. Aqui, o leitor familiariza-se com seus costumes, suas leis, crenças e práticas religiosas, e se depara com algumas tradições muito distantes das do chamado “mundo civilizado”, como a poligamia, a exposição de gêmeos, e até mesmo o sacrifício humano. A segunda, após um acidente que o obriga a abandonar a aldeia natal, mostra como tais tradições são confrontadas com outras: as do branco colonizador.

Seguindo o ponto de vista dos igbo, o acidente provocado por Okonkwo pode ser interpretado como a quebra involuntária de um tabu, o que leva todo o seu povo à desgraça. A partir do momento em que ele parte em exílio, o homem branco se instala, trazendo consigo uma religião incompreensível e uma lei implacável. Vistos por uma perspectiva neutra, os costumes estrangeiros acabam se mostrando como, pelo menos, igualmente brutais e sem sentido como os seus. Diante da violência e da agressão dos invasores, o mundo dos verdadeiros donos da terra se desmorona, enquanto até mesmo o mais honrado dos homens é desprovido do seu bem mais precioso: a sua dignidade.

O que mais surpreende no livro de Achebe é a capacidade do autor de colocar no papel, de forma neutra e sem romantismos, a mentalidade ancestral do homem igbo, abrindo ao leitor as portas para um universo psicológico totalmente alheio ao seu, mas igualmente complexo, e incontestavelmente apaixonante. O choque entre as culturas e a incompreensão dos nativos são narrados com um enorme respeito aos costumes e tradições da tribo ancestral, numa narrativa que cativa justamente por não tomar partido, desprovida de julgamento de valores, e por isso muito próxima de um universo perdido, massacrado pelo implacável processo de colonização europeu.

E é justamente aí que reside a beleza e o inigualável valor de O mundo se despedaça: na lição de que não é preciso romantizar para mostrar a beleza e a sabedoria do outro. Basta, tão-somente, trata-lo com o respeito e a igualdade que ele merece. Por esse e tantos outros motivos, o romance do mestre nigeriano deveria ser uma leitura obrigatória, não apenas para os amantes de literatura ou para aqueles que se interessam pelo continente africano, como também para todos aqueles que pertencem à raça humana. A julgar por esse livro, Achebe é sem sombra de dúvida um dos maiores autores do século XX.

* O mundo se despedaça tinha sido anteriormente publicado no Brasil na década de 1980. Em Portugal, o livro foi publicado sob o nome de Quando tudo se desmorona. Ambas as edições estão esgotadas.

Título original: Things Fall Apart

País: Nigéria

Idioma original: inglês

Ano de publicação: 1958

Ano de lançamento no Brasil: 2009

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-591-550-1)

Número de páginas: 240

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