A confissão da leoa, de Mia Couto

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Ao longo das últimas décadas, o moçambicano Mia Couto vem consolidando seu papel de porta-voz da literatura africana de expressão lusófona. Seu mais recente trabalho, A confissão da leoa, mostra que o escritor continua sendo um mestre das palavras, criador de personagens ao mesmo tempo tão reais e tão distantes da realidade que parecem sonhadas.

O romance desenrola-se na distante aldeia de Kulumani, onde os vivos convivem com seus mortos, a fé catolica concubina-se às superstições locais, e uma população triste e esquecida se vê vitima do ataque de leões devoradores de gente. A fim de melhorar sua imagem política, um administrador do governo contrata um caçador, que vem acompanhado de um escritor incumbido de fazer o relato da caçada.

O texto segue a linha de trabalhos mais antigos de Mia: o leitor já iniciado reencontrará o universo mítico e onírico dos seus romances, os jogos de palavras, as expressões de grande profundidade, faladas quase despretensiosamente, em forte tom de sabedoria popular. A história vai se desenrolando em primeira pessoa pela voz intercalada de dois narradores distintos: a campesina Mariamar – irmã da mais recente vítima dos leões, acometida a ataques de loucura -, e Arcanjo Baleiro, o caçador citadino. Ao rol de personagens marcantes juntam-se ainda a obesa primeira-dama Naftalinda, originária do povoado, o tio-avô falecido de Mariamar Adjiru Kapitamoro, espécie de entidade telúrica protetora, e Hanifa Assulua, mulher forçada a ser mulher, mãe incapaz de ser mãe.

Aos poucos, os verdadeiros leões de Kulumani começam a dar as caras, e o povoado é mostrado como um lugar corroído pelo ódio, pela desconfiança e pela inveja, no qual as mulheres levam uma existência de mortas-vivas, escravas da vontade de seus homens, ajoelhadas diantes dos seus próprios carrascos. Desta forma, o texto denuncia todas as formas de abuso contra as mulheres, abusos que não têm lugar apenas em vilarejos longínquos, mas também nas cidades. A lista é longa: espancamentos, incestos, estupros, torturas, mutilações genitais – crimes cujas consequências levam a vítima a perder seu estatuto de humanidade, afastando-se do universo racional, aparentando-se aos bichos. A partir daí, o romance se aproxima da temática das “crianças selvagens”, expressão empregada para designar crianças severamente abusadas desde a mais tenra idade, que, por consequência de traumas, do abandono e da falta de convívio com outros seres humanos, perdem a capacidade de fala, de caminhar e de agir em sociedade.

Será o melhor dos caçadores capaz de lutar contra um fenômeno não necessariamente de ordem natural? Pois enquanto os racionais forasteiros explicam o ataque dos leões como consequência da ruptura da sua cadeia alimentar, os homens e mulheres de Kulumani têm outra explicação para o aparecimento dos felinos. Tratar-se-ia de “leões fabricados”, fruto do trabalho de feiticeiros locais? Seriam eles uma metáfora para os males que assolam o vilarejo, devorando vivos seus cidadãos indefesos? Ou seriam os assassinos tão-somente pessoas, homens e mulheres desprovidos de humanidade, metamorfoseados pelo ódio? Todas as interpretações são possiveis, nenhuma explicação é absoluta. E eis justamente o que faz d’A confissão da leoa uma leitura memorável, e de Mia Couto um dos mais talentosos autores da língua portuguesa do século XXI.

Título original: A confissão da leoa

País: Angola

Idioma original: português

Ano de publicação: 2012

Edição portuguesa: Editora Caminho (ISBN 978-972-21-2567-3)

Edição brasileira: Companhia das Letras (ISBN 978-853-59-2163-2)

Número de páginas: 270 (edição portuguesa), 256 (edição brasileira)

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