Inyenzi ou les cafards, de Scholastique Mukasonga

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Há vinte anos, teve início, num pequeno país do coração africano, aquele que ficaria conhecido como o genocídio mais brutal de todos os tempos. Tal fama não se deve apenas ao número de óbitos (cerca de 800 mil homens, mulheres e crianças), proporcionado à velocidade da ação (apenas 100 dias), mas sobretudo à quantidade inédita de assassinos, ao sadismo empregado pelos mesmos (munidos sobretudo de machetes e porretes), e ao fato de que, em Ruanda, os algozes eram, majoritariamente, conhecidos, colegas e vizinhos de suas vítimas.

Com exceção do aclamado filme de Terry George (Hotel Ruanda, 2004, prêmio de melhor filme do Festival de Cinema de Berlim), o extermínio dos Tutsis teve pouca visibilidade no Brasil. Provavelmente, a grande maioria dos brasileiros sequer saberia localizar Ruanda num mapa da África. Afinal, o que temos a ver com as tragédias de mais um povo africano, tão distante de nós?

O leitor brasileiro que se interessar pelo genocídio de Ruanda terá que se contentar com o parco material em português disponível na internet, a menos que possa recorrer à mais ampla bibliografia em língua estrangeira. Assim, descobrirá um país dividido pela adversidade entre duas etnias – os Hutus e os Tutsis -, e verá que as origens do mal foram disseminadas pelos colonizadores europeus, baseados na crença determinista de que os Tutsis eram mais “caucasianos” e, consequentemente, superiores aos Hutus. Verá também que, no outono de 1994, seguidamente à morte do presidente Juvénal Habyarimana num atentado, o movimento civil chamado “Hutu Power” deu início ao massacre que levou ao desaparecimento de aproximadamente 20% da população do país.

Primeiro livro da ruandesa Scholastique Mukasonga, Inyenzi ou les cafards narra a experiência da autora, pertencente à etnia minoritária Tutsi. Nesse livro, o leitor não encontrará o relato de uma sobrevivente dos acontecimentos que chocaram o mundo há duas décadas, mas sim o da vítima de um processo iniciado muito antes. Mukasonga foi obrigada a abandonar o país em 1973, deixando para trás a família que apenas reveria em duas ocasiões, uma vez que as visitas da filha colocavam em risco a segurança de todos. Mas se engana quem pensa que se tratava de uma família de ativistas políticos, de posição social importante, contestadora do governo. Mukasonga nada mais era que uma camponesa pobre, vivendo em situação de miséria na região mais inóspita de Ruanda, cujo único crime consistia em ter sido admitida como aluna na mais bem-conceituada escola para meninas do país – além, é claro, de ter a palavra Tutsi estampada no bilhete de identidade. Tratava-se de um programa empregado pelo governo para exterminar todos os Tutsis que possuíssem alguma escolaridade.

O texto, infelizmente, não tem tradução para o português, mas o leitor que se aventurar na língua de Baudelaire terá diante de si um relato pungente, que o fará entender o pano de fundo da tragédia de 1994. Para isso, a autora remete-nos ao final da década de 1950, quando, com o fim da colonização belga, boa parte dos Tutsis foi deportada para a árida região de Nyamata. A partir daí, ela narra os poucos momentos de felicidade numa infância pouco comum, vivida à sombra da ameaça dos soldados Hutus, em meio à opressão e a grandes privações. A morte, Mukasonga conheceu desde sempre, já que por épocas o número de mortos jogados no lago era tamanho, que a água que buscava para abastecer a família vinha coberta de resquícios de carne humana putrefeita. Mais tarde, ao ser admitida na escola de elite frequentada, entre outros, pela filha do presidente, trata dos sofrimentos encarados com resignação, bem como da grande humilhação de ser uma inyenzi (barata).

Diante de tantos anúncios de uma tragédia iminente, o capítulo que narra o genocídio de 1994 tem como título “o horror esperado”. Afinal, em vista ao que vinha ocorrendo em décadas, quem poderia dizer que o massacre foi uma surpresa? Aqui, a palavra toma por base o relato dos poucos sobreviventes da família de Mukasonga, e ela fala dos últimos momentos de alguns dos seus. Como o cunhado professor universitário, que teve uma morte lenta na prisão, tendo um membro do corpo amputado a cada dia, ou a irmã mais nova, grávida de 8 meses, que teve o feto arrancado da barriga a golpes de facão, em praça pública, e foi deixada para sangrar ao lado da filha de três anos. Ao todo, foram 37 mortos, entre os pais, irmãos, cunhados e sobrinhos. Tudo isso é contado com a frieza e o distanciamento típicos da “literatura do trauma”, o que assemelha o livro a textos escritos por sobreviventes dos campos de concentração. Aquele que sobrevive a uma tragédia de tal porte, compara o sofrimento do luto à dor de todos aqueles que não tiveram tanta sorte, e não se dá o direito de se sentir vítima.

Diante de um crimes de tais proporções, a maioria absoluta dos assassinos de 1994 nunca foi a julgamento. Assim, ao caminhar pelos vilarejos da juventude, dez anos depois, Mukasonga relembra os mortos e se pergunta se os mesmos vizinhos que agora cruza não seriam por acaso os assassinos de seus pais. Pois o mais trágico é que, até hoje, vítimas e agressores ainda convivem lado a lado, como se nada tivesse sido.

Por fim, a pergunta feita no início desta resenha  – o que temos a ver com o genocídio dos Tutsis? – pode ser respondida com uma citação de Terêncio: “Homo sum; humani nil a me alienum puto” (sou humano, nada do que é humano me é alheio). Embora a resposta não possa ser apenas relacionada à ideia de partilhar as “dores do mundo”, como diria Schopenhauer. Trata-se, mais do que isso, de relembrar como forma de dar nome às vítimas, honrar sua existência, dar sentido ao seu sofrimento. Além de, obviamente, servir como um alerta, na esperança de que a história nunca mais se repita.

Título original: Inyenzi ou les cafards

País: Ruanda

Idioma original: francês

Ano de publicação: 2006

Versão em português: não há

Número de páginas: 191

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